terça-feira, 22 de outubro de 2013

ORAR COMO CONVÉM

Amados irmãos.
Hoje vos escrevo,com este direcionamento ORAR COMO CONVÉM.

Qual a oração perfeita?

É quando vc faz uma oração coletiva,pensando no bem comum,e palavras sinceras que brotam do coração.

Quando sei que Deus ouviu minha oração?

Quando vc percebe a mão dele agindo,e descobre o que ele quer de vc,ou seja vc tem que ouvir a vontade de Deus.

Como ouço a Deus?

Deus fala nas pequenas coisas, 
Uma vez quando preparava uma pregação,perguntei  Senhor o que vou pregar?
Aí na missa de domingo a padre falava de cura do coração da alma,cura senhor onde eu ñ posso ir,
Na segunda feira a noite liguei a TV na Canção Nova,o Padre Leo tava pregando sobre ressentimentos,mais tarde fui ouvir uma musica,foi a do filho prodigo.
Fui juntando tudo,e levei pro Grupo de Oração,terminando a pregação uma mulher falou assim,quem te contou o que to passando?,suas palavras foi uma historia de tudo que eu estou vivendo.
E eu disse foi o Senhor minha Irmã ele sabia que vc viria e sabia de seus sofrimentos por isso fica curada em nome de Jesus,ela acolheu a graça e nunca mais a depressão voltou. 
Temos que estar atento,o pai ou a mãe quando ve o filho recém nascido chorando logo sabe do que ele precisa,e Deus fala a todo momento quando nos abrimos a ele,
Eu particularmente vejo a mão de Deus na natureza,no ceu a noite,ele me mostra os seus desejos aquilo que quer que eu faça.
É claro que todos os dias eu vou ver Jesus sacramentado,rezo o terço,e uma vez por semana me retiro a um lugar particular para orar em lingua,ler a palavra de Deus.
Eu e o Senhor temos uma intimidade,pois ele tá proximo de mim e eu o busco sempre.

Porque devo Orar?

 Jesus disse orai e vigiai sem cessar,é porque somos pecadores e o mau está a nos rondar e quando nos oramos nós resistimos ao demonio e ele foge de nós como diz Sao Paulo Apostolo(resisti ao demonio e ele fugirá de vos)

A oração tem nivel?

Sim,claro...
Quando nós entramos na escola no presinho não sabíamos nada aí vem as primeiras letrinhas os primeiros numeros e aos poucos vamos aprendendo a ler escrever etc...
Na oração temos o inicio que é as oraçoes que fazemos por fazer que alguem escreveu e nós lemos por ler.
Segundo passo,Lemos estas mesmas oraçoes mas,prestando a atençao nas palavras,confirmando dentro do coração.
Terceiro passo,Falamos de dentro de nosso coração para fora,palavras verdadeiras e humildes.
Quarto passo,Falamos de dentro do nosso coração agradecendo em todas as situaçoes,agradecemos mais e pedimos menos,Deus agrada de um coração agradecido.
Quinto passo,Falar em silencio(meditando)derruba o inimigo pois ele ñ sabe o que vc tá pedindo pra Deus,é claro que vc conseguirá,praticando os primeiros passos.
Sexto passo,é Levitação poucos conseguem seria em grau de escola como um doutorado hoje.
A pessoa esta em intimidade tão profunda que até sai do chão,alguns santos conseguiram.

Depois falamos mais de oração em linguas,vc pode mandar sua pergunta e responderemos.


Att;Mauricio 

quinta-feira, 11 de julho de 2013

CARTA ENCÍCLICA LUMEN FIDEI


                                                               CARTA ENCÍCLICA
LUMEN FIDEI

DO SUMO PONTÍFICE
FRANCISCO
AOS BISPOS
AOS PRESBÍTEROS E AOS DIÁCONOS
ÀS PESSOAS CONSAGRADAS
E A TODOS OS FIÉIS LEIGOS
SOBRE A FÉ

1. A luz da fé é a expressão com que a tradição da Igreja designou o grande dom trazido por
Jesus. Eis como Ele Se nos apresenta, no Evangelho de João: « Eu vim ao mundo como luz,
para que todo o que crê em Mim não fique nas trevas » (Jo 12, 46). E São Paulo exprime-se
nestes termos: « Porque o Deus que disse: "das trevas brilhe a luz", foi quem brilhou nos
nossos corações » (2 Cor 4, 6). No mundo pagão, com fome de luz, tinha-se desenvolvido o
culto do deus Sol, Sol invictus, invocado na sua aurora. Embora o sol renascesse cada dia,
facilmente se percebia que era incapaz de irradiar a sua luz sobre toda a existência do homem.
De facto, o sol não ilumina toda a realidade, sendo os seus raios incapazes de chegar até às
sombras da morte, onde a vista humana se fecha para a sua luz. Aliás « nunca se viu ninguém
— afirma o mártir São Justino — pronto a morrer pela sua fé no sol ».[1] Conscientes do
amplo horizonte que a fé lhes abria, os cristãos chamaram a Cristo o verdadeiro Sol, « cujos
raios dão a vida ».[2] A Marta, em lágrimas pela morte do irmão Lázaro, Jesus diz-lhe: « Eu
não te disse que, se acreditares, verás a glória de Deus? » (Jo 11, 40). Quem acredita, vê; vê
com uma luz que ilumina todo o percurso da estrada, porque nos vem de Cristo ressuscitado,
estrela da manhã que não tem ocaso.
Uma luz ilusória?
2. E contudo podemos ouvir a objecção que se levanta de muitos dos nossos contemporâneos,
quando se lhes fala desta luz da fé. Nos tempos modernos, pensou-se que tal luz poderia ter
sido suficiente para as sociedades antigas, mas não servia para os novos tempos, para o homem
tornado adulto, orgulhoso da sua razão, desejoso de explorar de forma nova o futuro. Nesta
perspectiva, a fé aparecia como uma luz ilusória, que impedia o homem de cultivar a ousadia
do saber. O jovem Nietzsche convidava a irmã Elisabeth a arriscar, percorrendo vias novas
(…), na incerteza de proceder de forma autónoma ». E acrescentava: « Neste ponto,
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separam-se os caminhos da humanidade: se queres alcançar a paz da alma e a felicidade,
contenta-te com a fé; mas, se queres ser uma discípula da verdade, então investiga ».[3] O crer
opor-se-ia ao indagar. Partindo daqui, Nietzsche desenvolverá a sua crítica ao cristianismo por
ter diminuído o alcance da existência humana, espoliando a vida de novidade e aventura. Neste
caso, a fé seria uma espécie de ilusão de luz, que impede o nosso caminho de homens livres
rumo ao amanhã.
3. Por este caminho, a fé acabou por ser associada com a escuridão. E, a fim de conviver com a
luz da razão, pensou-se na possibilidade de a conservar, de lhe encontrar um espaço: o espaço
para a fé abria-se onde a razão não podia iluminar, onde o homem já não podia ter certezas.
Deste modo, a fé foi entendida como um salto no vazio, que fazemos por falta de luz e
impelidos por um sentimento cego, ou como uma luz subjectiva, talvez capaz de aquecer o
coração e consolar pessoalmente, mas impossível de ser proposta aos outros como luz
objectiva e comum para iluminar o caminho. Entretanto, pouco a pouco, foi-se vendo que a luz
da razão autónoma não consegue iluminar suficientemente o futuro; este, no fim de contas,
permanece na sua obscuridade e deixa o homem no temor do desconhecido. E, assim, o
homem renunciou à busca de uma luz grande, de uma verdade grande, para se contentar com
pequenas luzes que iluminam por breves instantes, mas são incapazes de desvendar a estrada.
Quando falta a luz, tudo se torna confuso: é impossível distinguir o bem do mal, diferenciar a
estrada que conduz à meta daquela que nos faz girar repetidamente em círculo, sem direcção.
Uma luz a redescobrir
4. Por isso, urge recuperar o carácter de luz que é próprio da fé, pois, quando a sua chama se
apaga, todas as outras luzes acabam também por perder o seu vigor. De facto, a luz da fé possui
um carácter singular, sendo capaz de iluminar toda a existência do homem. Ora, para que uma
luz seja tão poderosa, não pode dimanar de nós mesmos; tem de vir de uma fonte mais
originária, deve porvir em última análise de Deus. A fé nasce no encontro com o Deus vivo,
que nos chama e revela o seu amor: um amor que nos precede e sobre o qual podemos
apoiar-nos para construir solidamente a vida. Transformados por este amor, recebemos olhos
novos e experimentamos que há nele uma grande promessa de plenitude e se nos abre a visão
do futuro. A fé, que recebemos de Deus como dom sobrenatural, aparece-nos como luz para a
estrada orientando os nossos passos no tempo. Por um lado, provém do passado: é a luz duma
memória basilar — a da vida de Jesus –, onde o seu amor se manifestou plenamente fiável,
capaz de vencer a morte. Mas, por outro lado e ao mesmo tempo, dado que Cristo ressuscitou e
nos atrai de além da morte, a fé é luz que vem do futuro, que descerra diante de nós horizontes
grandes e nos leva a ultrapassar o nosso « eu » isolado abrindo-o à amplitude da comunhão.
Deste modo, compreendemos que a fé não mora na escuridão, mas é uma luz para as nossas
trevas. Dante, na Divina Comédia, depois de ter confessado diante de São Pedro a sua fé,
descreve-a como uma « centelha / que se expande depois em viva chama / e, como estrela no
céu, em mim cintila ». [4] É precisamente desta luz da fé que quero falar, desejando que cresça
a fim de iluminar o presente até se tornar estrela que mostra os horizontes do nosso caminho,
num tempo em que o homem vive particularmente carecido de luz.
5. Antes da sua paixão, o Senhor assegurava a Pedro: « Eu roguei por ti, para que a tua fé não
desfaleça » (Lc 22, 32). Depois pediu-lhe para « confirmar os irmãos » na mesma fé.
Consciente da tarefa confiada ao Sucessor de Pedro, Bento XVI quis proclamar este Ano da Fé,
um tempo de graça que nos tem ajudado a sentir a grande alegria de crer, a reavivar a
percepção da amplitude de horizontes que a fé descerra, para a confessar na sua unidade e
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integridade, fiéis à memória do Senhor, sustentados pela sua presença e pela acção do Espírito
Santo. A convicção duma fé que faz grande e plena a vida, centrada em Cristo e na força da
sua graça, animava a missão dos primeiros cristãos. Nas Actas dos Mártires, lemos este diálogo
entre o prefeito romano Rústico e o cristão Hierax: « Onde estão os teus pais? » — perguntava
o juiz ao mártir; este respondeu: « O nosso verdadeiro pai é Cristo, e nossa mãe a fé n’Ele ».[5]
Para aqueles cristãos, a fé, enquanto encontro com o Deus vivo que Se manifestou em Cristo,
era uma « mãe », porque os fazia vir à luz, gerava neles a vida divina, uma nova experiência,
uma visão luminosa da existência, pela qual estavam prontos a dar testemunho público até ao
fim.
6. O Ano da Fé teve início no cinquentenário da abertura do Concílio Vaticano II. Esta
coincidência permite-nos ver que o mesmo foi um Concílio sobre a fé,[6] por nos ter
convidado a repor, no centro da nossa vida eclesial e pessoal, o primado de Deus em Cristo. Na
verdade, a Igreja nunca dá por descontada a fé, pois sabe que este dom de Deus deve ser
nutrido e revigorado sem cessar para continuar a orientar o caminho dela. O Concílio Vaticano
II fez brilhar a fé no âmbito da experiência humana, percorrendo assim os caminhos do homem
contemporâneo. Desta forma, se viu como a fé enriquece a existência humana em todas as suas
dimensões.
7. Estas considerações sobre a fé — em continuidade com tudo o que o magistério da Igreja
pronunciou acerca desta virtude teologal [7] — pretendem juntar-se a tudo aquilo que Bento
XVI escreveu nas cartas encíclicas sobre a caridade e a esperança. Ele já tinha quase concluído
um primeiro esboço desta carta encíclica sobre a fé. Estou-lhe profundamente agradecido e, na
fraternidade de Cristo, assumo o seu precioso trabalho, limitando-me a acrescentar ao texto
qualquer nova contribuição. De facto, o Sucessor de Pedro, ontem, hoje e amanhã, sempre está
chamado a « confirmar os irmãos » no tesouro incomensurável da fé que Deus dá a cada
homem como luz para o seu caminho.
Na fé, dom de Deus e virtude sobrenatural por Ele infundida, reconhecemos que um grande
Amor nos foi oferecido, que uma Palavra estupenda nos foi dirigida: acolhendo esta Palavra
que é Jesus Cristo — Palavra encarnada –, o Espírito Santo transforma-nos, ilumina o caminho
do futuro e faz crescer em nós as asas da esperança para o percorrermos com alegria. Fé,
esperança e caridade constituem, numa interligação admirável, o dinamismo da vida cristã
rumo à plena comunhão com Deus. Mas, como é este caminho que a fé desvenda diante de
nós? Donde provém a sua luz, tão poderosa que permite iluminar o caminho duma vida bem
sucedida e fecunda, cheia de fruto?
CAPÍTULO I
ACREDITÁMOS NO AMOR
(cf. 1 Jo 4, 16)
Abraão, nosso pai na fé
8. A fé desvenda-nos o caminho e acompanha os nossos passos na história. Por isso, se
quisermos compreender o que é a fé, temos de explanar o seu percurso, o caminho dos homens
crentes, com os primeiros testemunhos já no Antigo Testamento. Um posto singular ocupa
Abraão, nosso pai na fé. Na sua vida, acontece um facto impressionante: Deus dirige-lhe a
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Palavra, revela-Se como um Deus que fala e o chama por nome. A fé está ligada à escuta.
Abraão não vê Deus, mas ouve a sua voz. Deste modo, a fé assume um carácter pessoal: o
Senhor não é o Deus de um lugar, nem mesmo o Deus vinculado a um tempo sagrado
específico, mas o Deus de uma pessoa, concretamente o Deus de Abraão, Isaac e Jacob, capaz
de entrar em contacto com o homem e estabelecer com ele uma aliança. A fé é a resposta a
uma Palavra que interpela pessoalmente, a um Tu que nos chama por nome.
9. Esta Palavra comunica a Abraão uma chamada e uma promessa. Contém, antes de tudo, uma
chamada a sair da própria terra, convite a abrir-se a uma vida nova, início de um êxodo que o
encaminha para um futuro inesperado. A perspectiva, que a fé vai proporcionar a Abraão,
estará sempre ligada com este passo em frente que ele deve realizar: a fé « vê » na medida em
que caminha, em que entra no espaço aberto pela Palavra de Deus. Mas tal Palavra contém
ainda uma promessa: a tua descendência será numerosa, serás pai de um grande povo (cf. Gn
13, 16; 15, 5; 22, 17). É verdade que a fé de Abraão, enquanto resposta a uma Palavra que a
precede, será sempre um acto de memória; contudo esta memória não o fixa no passado,
porque, sendo memória de uma promessa, se torna capaz de abrir ao futuro, de iluminar os
passos ao longo do caminho. Assim se vê como a fé, enquanto memória do futuro, está
intimamente ligada com a esperança.
10. A Abraão pede-se para se confiar a esta Palavra. A fé compreende que a palavra — uma
realidade aparentemente efémera e passageira —, quando é pronunciada pelo Deus fiel,
torna-se no que de mais seguro e inabalável possa haver, possibilitando a continuidade do
nosso caminho no tempo. A fé acolhe esta Palavra como rocha segura, sobre a qual se pode
construir com alicerces firmes. Por isso, na Bíblia hebraica, a fé é indicada pela palavra
‘emûnah, que deriva do verbo ‘amàn, cuja raiz significa « sustentar ». O termo ‘emûnah tanto
pode significar a fidelidade de Deus como a fé do homem. O homem fiel recebe a sua força do
confiar-se nas mãos do Deus fiel. Jogando com dois significados da palavra — presentes tanto
no termo grego pistós como no correspondente latino fidelis –, São Cirilo de Jerusalém exaltará
a dignidade do cristão, que recebe o mesmo nome de Deus: ambos são chamados « fiéis ».[8] E
Santo Agostinho explica-o assim: « O homem fiel é aquele que crê no Deus que promete; o
Deus fiel é aquele que concede o que prometeu ao homem ».[9]
11. Há ainda um aspecto da história de Abraão que é importante para se compreender a sua fé.
A Palavra de Deus, embora traga consigo novidade e surpresa, não é de forma alguma alheia à
experiência do Patriarca. Na voz que se lhe dirige, Abraão reconhece um apelo profundo,
desde sempre inscrito no mais íntimo do seu ser. Deus associa a sua promessa com aquele «
ponto » onde desde sempre a existência do homem se mostra promissora, ou seja, a
paternidade, a geração duma nova vida: « Sara, tua mulher, dar-te-á um filho, a quem hás-de
chamar Isaac » (Gn 17, 19). O mesmo Deus que pede a Abraão para se confiar totalmente a
Ele, revela-Se como a fonte donde provém toda a vida. Desta forma, a fé une-se com a
Paternidade de Deus, da qual brota a criação: o Deus que chama Abraão é o Deus criador,
aquele que « chama à existência o que não existe » (Rm 4, 17), aquele que, « antes da fundação
do mundo, (...) nos predestinou para sermos adoptados como seus filhos » (Ef 1, 4-5). No caso
de Abraão, a fé em Deus ilumina as raízes mais profundas do seu ser: permite-lhe reconhecer a
fonte de bondade que está na origem de todas as coisas, e confirmar que a sua vida não deriva
do nada nem do acaso, mas de uma chamada e um amor pessoais. O Deus misterioso que o
chamou não é um Deus estranho, mas a origem de tudo e que tudo sustenta. A grande prova da
fé de Abraão, o sacrifício do filho Isaac, manifestará até que ponto este amor originador é
capaz de garantir a vida mesmo para além da morte. A Palavra que foi capaz de suscitar um
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filho no seu corpo « já sem vida (…), como sem vida estava o seio » de Sara estéril (Rm 4, 19),
também será capaz de garantir a promessa de um futuro para além de qualquer ameaça ou
perigo (cf. Heb 11, 19; Rm 4, 21).
A fé de Israel
12. A história do povo de Israel, no livro do Êxodo, continua na esteira da fé de Abraão. De
novo, a fé nasce de um dom originador: Israel abre-se à acção de Deus, que quer libertá-lo da
sua miséria. A fé é chamada a um longo caminho, para poder adorar o Senhor no Sinai e herdar
uma terra prometida. O amor divino possui os traços de um pai que conduz seu filho pelo
caminho (cf. Dt 1, 31). A confissão de fé de Israel desenrola-se como uma narração dos
benefícios de Deus, da sua acção para libertar e conduzir o povo (cf. Dt 26, 5-11); narração
esta, que o povo transmite de geração em geração. A luz de Deus brilha para Israel, através da
comemoração dos factos realizados pelo Senhor, recordados e confessados no culto,
transmitidos pelos pais aos filhos. Deste modo aprendemos que a luz trazida pela fé está ligada
com a narração concreta da vida, com a grata lembrança dos benefícios de Deus e com o
progressivo cumprimento das suas promessas. A arquitectura gótica exprimiu-o muito bem:
nas grandes catedrais, a luz chega do céu através dos vitrais onde está representada a história
sagrada. A luz de Deus vem-nos através da narração da sua revelação e, assim, é capaz de
iluminar o nosso caminho no tempo, recordando os benefícios divinos e mostrando como se
cumprem as suas promessas.
13. A história de Israel mostra-nos ainda a tentação da incredulidade, em que o povo caiu
várias vezes. Aparece aqui o contrário da fé: a idolatria. Enquanto Moisés fala com Deus no
Sinai, o povo não suporta o mistério do rosto divino escondido, não suporta o tempo de espera.
Por sua natureza, a fé pede para se renunciar à posse imediata que a visão parece oferecer; é
um convite para se abrir à fonte da luz, respeitando o mistério próprio de um Rosto que
pretende revelar-se de forma pessoal e no momento oportuno. Martin Buber citava esta
definição da idolatria, dada pelo rabino de Kock: há idolatria, « quando um rosto se dirige
reverente a um rosto que não é rosto ».[10] Em vez da fé em Deus, prefere-se adorar o ídolo,
cujo rosto se pode fixar e cuja origem é conhecida, porque foi feito por nós. Diante do ídolo,
não se corre o risco de uma possível chamada que nos faça sair das próprias seguranças,
porque os ídolos « têm boca, mas não falam » (Sal 115, 5). Compreende-se assim que o ídolo é
um pretexto para se colocar a si mesmo no centro da realidade, na adoração da obra das
próprias mãos. Perdida a orientação fundamental que dá unidade à sua existência, o homem
dispersa-se na multiplicidade dos seus desejos; negando-se a esperar o tempo da promessa,
desintegra-se nos mil instantes da sua história. Por isso, a idolatria é sempre politeísmo,
movimento sem meta de um senhor para outro. A idolatria não oferece um caminho, mas uma
multiplicidade de veredas que não conduzem a uma meta certa, antes se configuram como um
labirinto. Quem não quer confiar-se a Deus, deve ouvir as vozes dos muitos ídolos que lhe
gritam: « Confia-te a mim! » A fé, enquanto ligada à conversão, é o contrário da idolatria: é
separação dos ídolos para voltar ao Deus vivo, através de um encontro pessoal. Acreditar
significa confiar-se a um amor misericordioso que sempre acolhe e perdoa, que sustenta e guia
a existência, que se mostra poderoso na sua capacidade de endireitar os desvios da nossa
história. A fé consiste na disponibilidade a deixar-se incessantemente transformar pela
chamada de Deus. Paradoxalmente, neste voltar-se continuamente para o Senhor, o homem
encontra uma estrada segura que o liberta do movimento dispersivo a que o sujeitam os ídolos.
14. Na fé de Israel, sobressai também a figura de Moisés, o mediador. O povo não pode ver o
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rosto de Deus; é Moisés que fala com Jahvé na montanha e comunica a todos a vontade do
Senhor. Com esta presença do mediador, Israel aprendeu a caminhar unido. O acto de fé do
indivíduo insere-se numa comunidade, no « nós » comum do povo, que, na fé, é como um só
homem: « o meu filho primogénito », assim Deus designará todo o Israel (cf. Ex 4, 22). Aqui a
mediação não se torna um obstáculo, mas uma abertura: no encontro com os outros, o olhar
abre-se para uma verdade maior que nós mesmos. Jean Jacques Rousseau lamentava-se por
não poder ver Deus pessoalmente: « Quantos homens entre mim e Deus! » [11] « Será assim
tão simples e natural que Deus tenha ido ter com Moisés para falar a Jean Jacques Rousseau?
»[12] A partir de uma concepção individualista e limitada do conhecimento é impossível
compreender o sentido da mediação: esta capacidade de participar na visão do outro, saber
compartilhado que é o conhecimento próprio do amor. A fé é um dom gratuito de Deus, que
exige a humildade e a coragem de fiar-se e entregar-se para ver o caminho luminoso do
encontro entre Deus e os homens, a história da salvação.
A plenitude da fé cristã
15. « Abraão (...) exultou pensando em ver o meu dia; viu-o e ficou feliz » (Jo 8, 56). De
acordo com estas palavras de Jesus, a fé de Abraão estava orientada para Ele, de certo modo
era visão antecipada do seu mistério. Assim o entende Santo Agostinho, quando afirma que os
Patriarcas se salvaram pela fé; não fé em Cristo já chegado, mas fé em Cristo que havia de vir,
fé proclive para o evento futuro de Jesus.[13] A fé cristã está centrada em Cristo; é confissão
de que Jesus é o Senhor e que Deus O ressuscitou de entre os mortos (cf. Rm 10, 9). Todas as
linhas do Antigo Testamento se concentram em Cristo: Ele torna-Se o « sim » definitivo a
todas as promessas, fundamento último do nosso « Amen » a Deus (cf. 2 Cor 1, 20). A história
de Jesus é a manifestação plena da fiabilidade de Deus. Se Israel recordava os grandes actos de
amor de Deus, que formavam o centro da sua confissão e abriam o horizonte da sua fé, agora a
vida de Jesus aparece como o lugar da intervenção definitiva de Deus, a suprema manifestação
do seu amor por nós. A palavra que Deus nos dirige em Jesus já não é uma entre muitas outras,
mas a sua Palavra eterna (cf. Heb 1, 1-2). Não há nenhuma garantia maior que Deus possa dar
para nos certificar do seu amor, como nos lembra São Paulo (cf. Rm 8, 31-39). Portanto, a fé
cristã é fé no Amor pleno, no seu poder eficaz, na sua capacidade de transformar o mundo e
iluminar o tempo. « Nós conhecemos o amor que Deus nos tem, pois cremos nele » (1 Jo 4,
16). A fé identifica, no amor de Deus manifestado em Jesus, o fundamento sobre o qual assenta
a realidade e o seu destino último.
16. A maior prova da fiabilidade do amor de Cristo encontra-se na sua morte pelo homem. Se
dar a vida pelos amigos é a maior prova de amor (cf. Jo 15, 13), Jesus ofereceu a sua vida por
todos, mesmo por aqueles que eram inimigos, para transformar o coração. É por isso que os
evangelistas situam, na hora da Cruz, o momento culminante do olhar de fé: naquela hora
resplandece o amor divino em toda a sua sublimidade e amplitude. São João colocará aqui o
seu testemunho solene, quando, juntamente com a Mãe de Jesus, contemplou Aquele que
trespassaram (cf. Jo 19, 37): « Aquele que viu estas coisas é que dá testemunho delas e o seu
testemunho é verdadeiro. E ele bem sabe que diz a verdade, para vós crerdes também » (Jo 19,
35). Na sua obra O Idiota, Fiódor Mikhailovich Dostoiévski faz o protagonista — o príncipe
Myskin — dizer, à vista do quadro de Cristo morto no sepulcro, pintado por Hans Holbein o
Jovem: « Aquele quadro poderia mesmo fazer perder a fé a alguém »;[14] de facto, o quadro
representa, de forma muito crua, os efeitos destruidores da morte no corpo de Cristo. E todavia
é precisamente na contemplação da morte de Jesus que a fé se reforça e recebe uma luz
fulgurante, é quando ela se revela como fé no seu amor inabalável por nós, que é capaz de
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penetrar na morte para nos salvar. Neste amor que não se subtraiu à morte para manifestar
quanto me ama, é possível crer; a sua totalidade vence toda e qualquer suspeita e permite
confiar-nos plenamente a Cristo.
17. Ora, a morte de Cristo desvenda a total fiabilidade do amor de Deus à luz da sua
ressurreição. Enquanto ressuscitado, Cristo é testemunha fiável, digna de fé (cf. Ap 1, 5; Heb 2,
17), apoio firme para a nossa fé. « Se Cristo não ressuscitou, é vã a vossa fé », afirma São
Paulo (1 Cor 15, 17). Se o amor do Pai não tivesse feito Jesus ressurgir dos mortos, se não
tivesse podido restituir a vida ao seu corpo, não seria um amor plenamente fiável, capaz de
iluminar também as trevas da morte. Quando São Paulo fala da sua nova vida em Cristo, refere
que a vive « na fé do Filho de Deus que me amou e a Si mesmo Se entregou por mim » (Gl 2,
20). Esta « fé do Filho de Deus » é certamente a fé do Apóstolo dos gentios em Jesus, mas
supõe também a fiabilidade de Jesus, que se funda, sem dúvida, no seu amor até à morte, mas
também no facto de Ele ser Filho de Deus. Precisamente porque é o Filho, porque está
radicado de modo absoluto no Pai, Jesus pôde vencer a morte e fazer resplandecer em
plenitude a vida. A nossa cultura perdeu a noção desta presença concreta de Deus, da sua acção
no mundo; pensamos que Deus Se encontra só no além, noutro nível de realidade, separado das
nossas relações concretas. Mas, se fosse assim, isto é, se Deus fosse incapaz de agir no mundo,
o seu amor não seria verdadeiramente poderoso, verdadeiramente real e, por conseguinte, não
seria sequer verdadeiro amor, capaz de cumprir a felicidade que promete. E, então, seria
completamente indiferente crer ou não crer n’Ele. Ao contrário, os cristãos confessam o amor
concreto e poderoso de Deus, que actua verdadeiramente na história e determina o seu destino
final; um amor que se fez passível de encontro, que se revelou em plenitude na paixão, morte e
ressurreição de Cristo.
18. A plenitude a que Jesus leva a fé possui outro aspecto decisivo: na fé, Cristo não é apenas
Aquele em quem acreditamos, a maior manifestação do amor de Deus, mas é também Aquele a
quem nos unimos para poder acreditar. A fé não só olha para Jesus, mas olha também a partir
da perspectiva de Jesus e com os seus olhos: é uma participação no seu modo de ver. Em
muitos âmbitos da vida, fiamo-nos de outras pessoas que conhecem as coisas melhor do que
nós: temos confiança no arquitecto que constrói a nossa casa, no farmacêutico que nos fornece
o remédio para a cura, no advogado que nos defende no tribunal. Precisamos também de
alguém que seja fiável e perito nas coisas de Deus: Jesus, seu Filho, apresenta-Se como Aquele
que nos explica Deus (cf. Jo 1, 18). A vida de Cristo, a sua maneira de conhecer o Pai, de viver
totalmente em relação com Ele abre um espaço novo à experiência humana, e nós podemos
entrar nele. São João exprimiu a importância que a relação pessoal com Jesus tem para a nossa
fé, através de vários usos do verbo crer. Juntamente com o « crer que » é verdade o que Jesus
nos diz (cf. Jo 14, 10; 20, 31), João usa mais duas expressões: « crer a (sinónimo de dar crédito
a) » Jesus e « crer em » Jesus. « Cremos a » Jesus, quando aceitamos a sua palavra, o seu
testemunho, porque Ele é verdadeiro (cf. Jo 6, 30). « Cremos em » Jesus, quando O acolhemos
pessoalmente na nossa vida e nos confiamos a Ele, aderindo a Ele no amor e seguindo-O ao
longo do caminho (cf. Jo 2, 11; 6, 47; 12, 44).
Para nos permitir conhecê-Lo, acolhê-Lo e segui-Lo, o Filho de Deus assumiu a nossa carne; e,
assim, a sua visão do Pai deu-se também de forma humana, através de um caminho e um
percurso no tempo. A fé cristã é fé na encarnação do Verbo e na sua ressurreição na carne; é fé
num Deus que Se fez tão próximo que entrou na nossa história. A fé no Filho de Deus feito
homem em Jesus de Nazaré não nos separa da realidade; antes permite-nos individuar o seu
significado mais profundo, descobrir quanto Deus ama este mundo e o orienta sem cessar para
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Si; e isto leva o cristão a comprometer-se, a viver de modo ainda mais intenso o seu caminho
sobre a terra.
A salvação pela fé
19. A partir desta participação no modo de ver de Jesus, o apóstolo Paulo deixou-nos, nos seus
escritos, uma descrição da existência crente. Aquele que acredita, ao aceitar o dom da fé, é
transformado numa nova criatura, recebe um novo ser, um ser filial, torna-se filho no Filho: «
Abbá, Pai » é a palavra mais característica da experiência de Jesus, que se torna centro da
experiência cristã (cf. Rm 8, 15). A vida na fé, enquanto existência filial, é reconhecer o dom
originário e radical que está na base da existência do homem, podendo resumir-se nesta frase
de São Paulo aos Coríntios: « Que tens tu que não tenhas recebido? » (1 Cor 4, 7). É
precisamente aqui que se situa o cerne da polémica do Apóstolo com os fariseus: a discussão
sobre a salvação pela fé ou pelas obras da lei. Aquilo que São Paulo rejeita é a atitude de quem
se quer justificar a si mesmo diante de Deus através das próprias obras; esta pessoa, mesmo
quando obedece aos mandamentos, mesmo quando realiza obras boas, coloca-se a si própria no
centro e não reconhece que a origem do bem é Deus. Quem actua assim, quem quer ser fonte
da sua própria justiça, depressa a vê exaurir-se e descobre que não pode sequer aguentar-se na
fidelidade à lei; fecha-se, isolando-se do Senhor e dos outros, e, por isso, a sua vida torna-se
vã, as suas obras estéreis, como árvore longe da água. Assim se exprime Santo Agostinho com
a sua linguagem concisa e eficaz: « Não te afastes d’Aquele que te fez, nem mesmo para te
encontrares a ti ».[15] Quando o homem pensa que, afastando-se de Deus, encontrar-se-á a si
mesmo, a sua existência fracassa (cf. Lc 15, 11-24). O início da salvação é a abertura a algo
que nos antecede, a um dom originário que sustenta a vida e a guarda na existência. Só
abrindo-nos a esta origem e reconhecendo-a é que podemos ser transformados, deixando que a
salvação actue em nós e torne a vida fecunda, cheia de frutos bons. A salvação pela fé consiste
em reconhecer o primado do dom de Deus, como resume São Paulo: « Porque é pela graça que
estais salvos, por meio da fé. E isto não vem de vós, é dom de Deus » (Ef 2, 8).
20. A nova lógica da fé centra-se em Cristo. A fé em Cristo salva-nos, porque é n’Ele que a
vida se abre radicalmente a um Amor que nos precede e transforma a partir de dentro, que age
em nós e connosco. Vê-se isto claramente na exegese que o Apóstolo dos gentios faz de um
texto do Deuteronómio; uma exegese que se insere na dinâmica mais profunda do Antigo
Testamento. Moisés diz ao povo que o mandamento de Deus não está demasiado alto nem
demasiado longe do homem; não se deve dizer: « Quem subirá por nós até ao céu e no-la irá
buscar? » ou « Quem atravessará o mar e no-la irá buscar? » (cf. Dt 30, 11-14). Esta
proximidade da palavra de Deus é concretizada por São Paulo na presença de Jesus no cristão.
« Não digas no teu coração: Quem subirá ao céu? Seria para fazer com que Cristo descesse.
Nem digas: Quem descerá ao abismo? Seria para fazer com que Cristo subisse de entre os
mortos » (Rm 10, 6-7). Cristo desceu à terra e ressuscitou dos mortos: com a sua encarnação e
ressurreição, o Filho de Deus abraçou o percurso inteiro do homem e habita nos nossos
corações por meio do Espírito Santo. A fé sabe que Deus Se tornou muito próximo de nós, que
Cristo nos foi oferecido como grande dom que nos transforma interiormente, que habita em
nós, e assim nos dá a luz que ilumina a origem e o fim da vida, o arco inteiro do percurso
humano.
21. Podemos assim compreender a novidade, a que a fé nos conduz. O crente é transformado
pelo Amor, ao qual se abriu na fé; e, na sua abertura a este Amor que lhe é oferecido, a sua
existência dilata-se para além dele próprio. São Paulo pode afirmar: « Já não sou eu que vivo,
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mas é Cristo que vive em mim » (Gl 2, 20), e exortar: « Que Cristo, pela fé, habite nos vossos
corações » (Ef 3, 17). Na fé, o « eu » do crente dilata-se para ser habitado por um Outro, para
viver num Outro, e assim a sua vida amplia-se no Amor. É aqui que se situa a acção própria do
Espírito Santo: o cristão pode ter os olhos de Jesus, os seus sentimentos, a sua predisposição
filial, porque é feito participante do seu Amor, que é o Espírito; é neste Amor que se recebe, de
algum modo, a visão própria de Jesus. Fora desta conformação no Amor, fora da presença do
Espírito que o infunde nos nossos corações (cf. Rm 5, 5), é impossível confessar Jesus como
Senhor (cf. 1 Cor 12, 3).
A forma eclesial da fé
22. Deste modo, a vida do fiel torna-se existência eclesial. Quando São Paulo fala aos cristãos
de Roma do único corpo que todos os crentes formam em Cristo, exorta-os a não se
vangloriarem, mas a avaliarem-se « de acordo com a medida de fé que Deus distribuiu a cada
um » (Rm 12, 3). O crente aprende a ver-se a si mesmo a partir da fé que professa. A figura de
Cristo é o espelho em que descobre realizada a sua própria imagem. E dado que Cristo abraça
em Si mesmo todos os crentes que formam o seu corpo, o cristão compreende-se a si mesmo
neste corpo, em relação primordial com Cristo e os irmãos na fé. A imagem do corpo não
pretende reduzir o crente a simples parte de um todo anónimo, a mero elemento de uma grande
engrenagem; antes, sublinha a união vital de Cristo com os crentes e de todos os crentes entre
si (cf. Rm 12, 4-5). Os cristãos sejam « todos um só » (cf. Gl 3, 28), sem perder a sua
individualidade, e, no serviço aos outros, cada um ganha profundamente o próprio ser.
Compreende-se assim por que motivo, fora deste corpo, desta unidade da Igreja em Cristo —
desta Igreja que, segundo as palavras de Romano Guardini, « é a portadora histórica do olhar
global de Cristo sobre o mundo »,[16] —, a fé perca a sua « medida », já não encontre o seu
equilíbrio, nem o espaço necessário para se manter de pé. A fé tem uma forma necessariamente
eclesial, é professada partindo do corpo de Cristo, como comunhão concreta dos crentes. A
partir deste lugar eclesial, ela abre o indivíduo cristão a todos os homens. Uma vez escutada, a
palavra de Cristo, pelo seu próprio dinamismo, transforma-se em resposta no cristão,
tornando-se ela mesma palavra pronunciada, confissão de fé. São Paulo afirma: « Realmente
com o coração se crê (…) e com a boca se faz a profissão de fé » (Rm 10, 10). A fé não é um
facto privado, uma concepção individualista, uma opinião subjectiva, mas nasce de uma escuta
e destina-se a ser pronunciada e a tornar-se anúncio. Com efeito, « como hão-de acreditar
n’Aquele de quem não ouviram falar? E como hão-de ouvir falar, sem alguém que O anuncie?
(Rm 10, 14). Concluindo, a fé torna-se operativa no cristão a partir do dom recebido, a partir do
Amor que o atrai para Cristo (cf. Gl 5, 6) e torna participante do caminho da Igreja, peregrina
na história rumo à perfeição. Para quem foi assim transformado, abre-se um novo modo de ver,
a fé torna-se luz para os seus olhos.
CAPÍTULO II
SE NÃO ACREDITARDES,
NÃO COMPREENDEREIS
(cf. Is 7, 9)
Fé e verdade
23. Se não acreditardes, não compreendereis (cf. Is 7, 9): foi assim que a versão grega da
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Bíblia hebraica — a tradução dos Setenta, feita em Alexandria do Egipto — traduziu as
palavras do profeta Isaías ao rei Acaz, fazendo aparecer como central, na fé, a questão do
conhecimento da verdade. Entretanto, no texto hebraico, há uma leitura diferente; aqui o
profeta diz ao rei: « Se não o acreditardes, não subsistireis ». Existe aqui um jogo de palavras
com duas formas do verbo ‘amàn: « acreditardes » (ta’aminu) e « subsistireis » (te’amenu).
Apavorado com a força dos seus inimigos, o rei busca a segurança que lhe pode vir de uma
aliança com o grande império da Assíria; mas o profeta convida-o a confiar apenas na
verdadeira rocha que não vacila: o Deus de Israel. Uma vez que Deus é fiável, é razoável ter fé
n’Ele, construir a própria segurança sobre a sua Palavra. Este é o Deus que Isaías chamará
mais adiante, por duas vezes, o Deus-Amen, o « Deus fiel » (cf. Is 65, 16), fundamento
inabalável de fidelidade à aliança. Poder-se-ia pensar que a versão grega da Bíblia, traduzindo
« subsistir » por « compreender », tivesse realizado uma mudança profunda do texto, passando
da noção bíblica de entrega a Deus à noção grega de compreensão. E no entanto esta tradução,
que aceitava certamente o diálogo com a cultura helenista, não é alheia à dinâmica profunda do
texto hebraico; a firmeza que Isaías promete ao rei passa, realmente, pela compreensão do agir
de Deus e da unidade que Ele dá à vida do homem e à história do povo. O profeta exorta a
compreender os caminhos do Senhor, encontrando na fidelidade de Deus o plano de sabedoria
que governa os séculos. Esta síntese entre o « compreender » e o « subsistir » é expressa por
Santo Agostinho, nas suas Confissões, quando fala da verdade em que se pode confiar para
conseguirmos ficar de pé: « Estarei firme e consolidar-me-ei em Ti, (…) na tua verdade ». [17]
Vendo o contexto, sabemos que este Padre da Igreja quer mostrar que esta verdade fidedigna de
Deus é, como resulta da Bíblia, a sua presença fiel ao longo da história, a sua capacidade de
manter unidos os tempos, recolhendo a dispersão dos dias do homem.[18]
24. Lido a esta luz, o texto de Isaías faz-nos concluir: o homem precisa de conhecimento,
precisa de verdade, porque sem ela não se mantém de pé, não caminha. Sem verdade, a fé não
salva, não torna seguros os nossos passos. Seria uma linda fábula, a projecção dos nossos
desejos de felicidade, algo que nos satisfaz só na medida em que nos quisermos iludir; ou então
reduzir-se-ia a um sentimento bom que consola e afaga, mas permanece sujeito às nossas
mudanças de ânimo, à variação dos tempos, incapaz de sustentar um caminho constante na
vida. Se a fé fosse isso, então o rei Acaz teria razão para não jogar a sua vida e a segurança do
seu reino sobre uma emoção. Mas não é! Precisamente pela sua ligação intrínseca com a
verdade, a fé é capaz de oferecer uma luz nova, superior aos cálculos do rei, porque vê mais
longe, compreende o agir de Deus, que é fiel à sua aliança e às suas promessas.
25. Lembrar esta ligação da fé com a verdade é hoje mais necessário do que nunca,
precisamente por causa da crise de verdade em que vivemos. Na cultura contemporânea,
tende-se frequentemente a aceitar como verdade apenas a da tecnologia: é verdadeiro aquilo
que o homem consegue construir e medir com a sua ciência; é verdadeiro porque funciona, e
assim torna a vida mais cómoda e aprazível. Esta verdade parece ser, hoje, a única certa, a
única partilhável com os outros, a única sobre a qual se pode conjuntamente discutir e
comprometer-se; depois haveria as verdades do indivíduo, como ser autêntico face àquilo que
cada um sente no seu íntimo, válidas apenas para o sujeito mas que não podem ser propostas
aos outros com a pretensão de servir o bem comum. A verdade grande, aquela que explica o
conjunto da vida pessoal e social, é vista com suspeita. Porventura não foi esta —
perguntam-se — a verdade pretendida pelos grandes totalitarismos do século passado, uma
verdade que impunha a própria concepção global para esmagar a história concreta do
indivíduo? No fim, resta apenas um relativismo, no qual a questão sobre a verdade de tudo —
que, no fundo, é também a questão de Deus — já não interessa. Nesta perspectiva, é lógico que
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se pretenda eliminar a ligação da religião com a verdade, porque esta associação estaria na raiz
do fanatismo, que quer emudecer quem não partilha da crença própria. A este respeito, pode-se
falar de uma grande obnubilação da memória no nosso mundo contemporâneo; de facto, a
busca da verdade é uma questão de memória, de memória profunda, porque visa algo que nos
precede e, desta forma, pode conseguir unir-nos para além do nosso « eu » pequeno e limitado;
é uma questão relativa à origem de tudo, a cuja luz se pode ver a meta e também o sentido da
estrada comum.
Conhecimento da verdade e amor
26. Nesta situação, poderá a fé cristã prestar um serviço ao bem comum relativamente à
maneira correcta de entender a verdade? Para termos uma resposta, é necessário reflectir sobre
o tipo de conhecimento próprio da fé. Pode ajudar-nos esta frase de Paulo: « Acredita-se com o
coração » (Rm 10, 10). Este, na Bíblia, é o centro do homem, onde se entrecruzam todas as
suas dimensões: o corpo e o espírito, a interioridade da pessoa e a sua abertura ao mundo e aos
outros, a inteligência, a vontade, a afectividade. O coração pode manter unidas estas
dimensões, porque é o lugar onde nos abrimos à verdade e ao amor, deixando que nos toquem
e transformem profundamente. A fé transforma a pessoa inteira, precisamente na medida em
que ela se abre ao amor; é neste entrelaçamento da fé com o amor que se compreende a forma
de conhecimento própria da fé, a sua força de convicção, a sua capacidade de iluminar os
nossos passos. A fé conhece na medida em que está ligada ao amor, já que o próprio amor traz
uma luz. A compreensão da fé é aquela que nasce quando recebemos o grande amor de Deus,
que nos transforma interiormente e nos dá olhos novos para ver a realidade.
27. É conhecido o modo como o filósofo Ludwig Wittgenstein explicou a ligação entre a fé e a
certeza. Segundo ele, acreditar seria comparável à experiência do enamoramento, concebida
como algo de subjectivo, impossível de propor como verdade válida para todos.[19] De facto,
aos olhos do homem moderno, parece que a questão do amor não teria nada a ver com a
verdade; o amor surge, hoje, como uma experiência ligada, não à verdade, mas ao mundo
inconstante dos sentimentos.
Mas, será esta verdadeiramente uma descrição adequada do amor? Na realidade, o amor não se
pode reduzir a um sentimento que vai e vem. É verdade que o amor tem a ver com a nossa
afectividade, mas para a abrir à pessoa amada, e assim iniciar um caminho que faz sair da
reclusão no próprio eu e dirigir-se para a outra pessoa, a fim de construir uma relação
duradoura; o amor visa a união com a pessoa amada. E aqui se manifesta em que sentido o
amor tem necessidade da verdade: apenas na medida em que o amor estiver fundado na
verdade é que pode perdurar no tempo, superar o instante efémero e permanecer firme para
sustentar um caminho comum. Se o amor não tivesse relação com a verdade, estaria sujeito à
alteração dos sentimentos e não superaria a prova do tempo. Diversamente, o amor verdadeiro
unifica todos os elementos da nossa personalidade e torna-se uma luz nova que aponta para
uma vida grande e plena. Sem a verdade, o amor não pode oferecer um vínculo sólido, não
consegue arrancar o « eu » para fora do seu isolamento, nem libertá-lo do instante fugidio para
edificar a vida e produzir fruto.
Se o amor tem necessidade da verdade, também a verdade precisa do amor; amor e verdade
não se podem separar. Sem o amor, a verdade torna-se fria, impessoal, gravosa para a vida
concreta da pessoa. A verdade que buscamos, a verdade que dá significado aos nossos passos,
ilumina-nos quando somos tocados pelo amor. Quem ama, compreende que o amor é
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experiência da verdade, compreende que é precisamente ele que abre os nossos olhos para
verem a realidade inteira, de maneira nova, em união com a pessoa amada. Neste sentido,
escreveu São Gregório Magno que o próprio amor é um conhecimento, [20] traz consigo uma
lógica nova. Trata-se de um modo relacional de olhar o mundo, que se torna conhecimento
partilhado, visão na visão do outro e visão comum sobre todas as coisas. Na Idade Média,
Guilherme de Saint Thierry adopta esta tradição, ao comentar um versículo do Cântico dos
Cânticos no qual o amado diz à amada: « Como são lindos os teus olhos de pomba! » (Ct 1,
15). [21] Estes dois olhos — explica Saint Thierry — são a razão crente e o amor, que se
tornam um único olhar para chegar à contemplação de Deus, quando a inteligência se faz «
entendimento de um amor iluminado ». [22]
28. Esta descoberta do amor como fonte de conhecimento, que pertence à experiência
primordial de cada homem, encontra uma expressão categorizada na concepção bíblica da fé.
Israel, saboreando o amor com que Deus o escolheu e gerou como povo, chega a compreender
a unidade do desígnio divino, desde a origem à sua realização. O conhecimento da fé, pelo
facto de nascer do amor de Deus que estabelece a Aliança, é conhecimento que ilumina um
caminho na história. É por isso também que, na Bíblia, verdade e fidelidade caminham juntas:
o Deus verdadeiro é o Deus fiel, Aquele que mantém as suas promessas e permite, com o
decorrer do tempo, compreender o seu desígnio. Através da experiência dos profetas, no
sofrimento do exílio e na esperança de um regresso definitivo à Cidade Santa, Israel intuiu que
esta verdade de Deus se estendia mais além da própria história, abraçando a história inteira do
mundo a começar da criação. O conhecimento da fé ilumina não só o caminho particular de um
povo, mas também o percurso inteiro do mundo criado, desde a origem até à sua consumação.
A fé como escuta e visão
29. Justamente porque o conhecimento da fé está ligado à aliança de um Deus fiel, que
estabelece uma relação de amor com o homem e lhe dirige a Palavra, é apresentado pela Bíblia
como escuta, aparece associado com o ouvido. São Paulo usará uma fórmula que se tornou
clássica: « fides ex auditu — a fé vem da escuta » (Rm 10, 17). O conhecimento associado à
palavra é sempre conhecimento pessoal, que reconhece a voz, se lhe abre livremente e a segue
obedientemente. Por isso, São Paulo falou da « obediência da fé » (cf. Rm 1, 5; 16, 26).[23]
Além disso, a fé é conhecimento ligado ao transcorrer do tempo que a palavra necessita para
ser explicitada: é conhecimento que só se aprende num percurso de seguimento. A escuta ajuda
a identificar bem o nexo entre conhecimento e amor.
A propósito do conhecimento da verdade, pretendeu-se por vezes contrapor a escuta à visão, a
qual seria peculiar da cultura grega. Se a luz, por um lado, oferece a contemplação da
totalidade a que o homem sempre aspirou, por outro, parece não deixar espaço à liberdade,
pois desce do céu e chega directamente à vista, sem lhe pedir que responda. Além disso, parece
convidar a uma contemplação estática, separada do tempo concreto em que o homem goza e
sofre. Segundo esta concepção, haveria oposição entre a abordagem bíblica do conhecimento e
a grega, a qual, na sua busca duma compreensão completa da realidade, teria associado o
conhecimento com a visão.
Mas tal suposta oposição não é corroborada de forma alguma pelos dados bíblicos: o Antigo
Testamento combinou os dois tipos de conhecimento, unindo a escuta da Palavra de Deus com
o desejo de ver o seu rosto. Isto tornou possível entabular diálogo com a cultura helenista, um
diálogo que pertence ao coração da Escritura. O ouvido atesta não só a chamada pessoal e a
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obediência, mas também que a verdade se revela no tempo; a vista, por sua vez, oferece a visão
plena de todo o percurso, permitindo situar-nos no grande projecto de Deus; sem tal visão,
disporíamos apenas de fragmentos isolados de um todo desconhecido.
30. A conexão entre o ver e o ouvir, como órgãos do conhecimento da fé, aparece com a
máxima clareza no Evangelho de João, onde acreditar é simultaneamente ouvir e ver. A escuta
da fé verifica-se segundo a forma de conhecimento própria do amor: é uma escuta pessoal, que
distingue e reconhece a voz do Bom Pastor (cf. Jo 10, 3-5); uma escuta que requer o
seguimento, como acontece com os primeiros discípulos que, « ouvindo [João Baptista] falar
desta maneira, seguiram Jesus » (Jo 1, 37). Por outro lado, a fé está ligada também com a
visão: umas vezes, a visão dos sinais de Jesus precede a fé, como sucede com os judeus que,
depois da ressurreição de Lázaro, « ao verem o que Jesus fez, creram n’Ele » (Jo 11, 45);
outras vezes, é a fé que leva a uma visão mais profunda: « Se acreditares, verás a glória de
Deus » (Jo 11, 40). Por fim, acreditar e ver cruzam-se: « Quem crê em Mim (...) crê n’Aquele
que Me enviou; e quem Me vê a Mim, vê Aquele que me enviou » (Jo 12, 44-45). O ver,
graças à sua união com o ouvir, torna-se seguimento de Cristo; e a fé aparece como um
caminho do olhar em que os olhos se habituam a ver em profundidade. E assim, na manhã de
Páscoa, de João — que, ainda na escuridão perante o túmulo vazio, « viu e começou a crer »
(Jo 20, 8) — passa-se a Maria Madalena — que já vê Jesus (cf. Jo 20, 14) e quer retê-Lo, mas
é convidada a contemplá-Lo no seu caminho para o Pai — até à plena confissão da própria
Madalena diante dos discípulos: « Vi o Senhor! » (Jo 20, 18).
Como se chega a esta síntese entre o ouvir e o ver? A partir da pessoa concreta de Jesus, que
Se vê e escuta. Ele é a Palavra que Se fez carne e cuja glória contemplámos (cf. Jo 1, 14). A
luz da fé é a luz de um Rosto, no qual se vê o Pai. De facto, no quarto Evangelho, a verdade
que a fé apreende é a manifestação do Pai no Filho, na sua carne e nas suas obras terrenas;
verdade essa, que se pode definir como a « vida luminosa » de Jesus.[24] Isto significa que o
conhecimento da fé não nos convida a olhar uma verdade puramente interior; a verdade que a
fé nos descerra é uma verdade centrada no encontro com Cristo, na contemplação da sua vida,
na percepção da sua presença. Neste sentido e a propósito da visão corpórea do Ressuscitado,
São Tomás de Aquino fala de oculata fides (uma fé que vê) dos Apóstolos:[25] viram Jesus
ressuscitado com os seus olhos e acreditaram, isto é, puderam penetrar na profundidade
daquilo que viam para confessar o Filho de Deus, sentado à direita do Pai.
31. Só assim, através da encarnação, através da partilha da nossa humanidade, podia chegar à
plenitude o conhecimento próprio do amor. De facto, a luz do amor nasce quando somos
tocados no coração, recebendo assim, em nós, a presença interior do amado, que nos permite
reconhecer o seu mistério. Compreendemos agora por que motivo, para João, a fé seja,
juntamente com o escutar e o ver, um tocar, como nos diz na sua Primeira Carta: « O que
ouvimos, o que vimos (…) e as nossas mãos tocaram relativamente ao Verbo da Vida… » (1 Jo
1, 1). Por meio da sua encarnação, com a sua vinda entre nós, Jesus tocou-nos e, através dos
sacramentos, ainda hoje nos toca; desta forma, transformando o nosso coração, permitiu-nos —
e permite-nos — reconhecê-Lo e confessá-Lo como Filho de Deus. Pela fé, podemos tocá-Lo e
receber a força da sua graça. Santo Agostinho, comentando a passagem da hemorroíssa que
toca Jesus para ser curada (cf. Lc 8, 45-46), afirma: « Tocar com o coração, isto é crer ».[26] A
multidão comprime-se ao redor de Jesus, mas não O alcança com aquele toque pessoal da fé
que reconhece o seu mistério, o seu ser Filho que manifesta o Pai. Só quando somos
configurados com Jesus é que recebemos o olhar adequado para O ver.
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O diálogo entre fé e razão
32. A fé cristã, enquanto anuncia a verdade do amor total de Deus e abre para a força deste
amor, chega ao centro mais profundo da experiência de cada homem, que vem à luz graças ao
amor e é chamado ao amor para permanecer na luz. Movidos pelo desejo de iluminar a
realidade inteira a partir do amor de Deus manifestado em Jesus e procurando amar com este
mesmo amor, os primeiros cristãos encontraram no mundo grego, na sua fome de verdade, um
parceiro idóneo para o diálogo. O encontro da mensagem evangélica com o pensamento
filosófico do mundo antigo constituiu uma passagem decisiva para o Evangelho chegar a todos
os povos e favoreceu uma fecunda sinergia entre fé e razão, que se foi desenvolvendo no
decurso dos séculos até aos nossos dias. O Beato João Paulo II, na sua carta encíclica Fides et
ratio, mostrou como fé e razão se reforçam mutuamente. [27] Depois de ter encontrado a luz
plena do amor de Jesus, descobrimos que havia, em todo o nosso amor, um lampejo daquela
luz e compreendemos qual era a sua meta derradeira; e, simultaneamente, o facto de o nosso
amor trazer em si uma luz ajuda-nos a ver o caminho do amor rumo à plenitude da doação total
do Filho de Deus por nós. Neste movimento circular, a luz da fé ilumina todas as nossas
relações humanas, que podem ser vividas em união com o amor e a ternura de Cristo.
33. Na vida de Santo Agostinho, encontramos um exemplo significativo deste caminho: a
busca da razão, com o seu desejo de verdade e clareza, aparece integrada no horizonte da fé, do
qual recebeu uma nova compreensão. Por um lado, acolhe a filosofia grega da luz com a sua
insistência na visão: o seu encontro com o neoplatonismo fez-lhe conhecer o paradigma da luz,
que desce do alto para iluminar as coisas, tornando-se assim um símbolo de Deus. Desta
maneira, Santo Agostinho compreendeu a transcendência divina e descobriu que todas as
coisas possuem em si uma transparência, isto é, que podiam reflectir a bondade de Deus, o
Bem; assim se libertou do maniqueísmo, em que antes vivia, que o inclinava a pensar que o
bem e o mal lutassem continuamente entre si, confundindo-se e misturando-se, sem contornos
claros. O facto de ter compreendido que Deus é luz deu à sua existência uma nova orientação,
a capacidade de reconhecer o mal de que era culpado e voltar-se para o bem.
Mas, por outro lado, na experiência concreta de Agostinho, que ele próprio narra nas suas
Confissões, o momento decisivo no seu caminho de fé não foi uma visão de Deus para além
deste mundo, mas a escuta, quando no jardim ouviu uma voz que lhe dizia: « Toma e lê »; ele
pegou no tomo com as Cartas de São Paulo, detendo-se no capítulo décimo terceiro da Carta
aos Romanos.[28] Temos aqui o Deus pessoal da Bíblia, capaz de falar ao homem, descer para
viver com ele e acompanhar o seu caminho na história, manifestando-Se no tempo da escuta e
da resposta.
Mas, este encontro com o Deus da Palavra não levou Santo Agostinho a rejeitar a luz e a visão,
mas integrou ambas as perspectivas, guiado sempre pela revelação do amor de Deus em Jesus.
Deste modo, elaborou uma filosofia da luz que reúne em si a reciprocidade própria da palavra e
abre um espaço à liberdade própria do olhar para a luz: tal como à palavra corresponde uma
resposta livre, assim também a luz encontra como resposta uma imagem que a reflecte. Deste
modo, associando escuta e visão, Santo Agostinho pôde referir-se à « palavra que resplandece
no interior do homem ».[29] A luz torna-se, por assim dizer, a luz de uma palavra, porque é a
luz de um Rosto pessoal, uma luz que, ao iluminar-nos, nos chama e quer reflectir-se no nosso
rosto para resplandecer a partir do nosso íntimo. Por outro lado, o desejo da visão do todo, e
não apenas dos fragmentos da história, continua presente e cumprir-se-á no fim, quando o
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homem — como diz o Santo de Hipona — poderá ver e amar;[30] e isto, não por ser capaz de
possuir a luz toda, já que esta será sempre inexaurível, mas por entrar, todo inteiro, na luz.
34. A luz do amor, própria da fé, pode iluminar as perguntas do nosso tempo acerca da
verdade. Muitas vezes, hoje, a verdade é reduzida a autenticidade subjectiva do indivíduo,
válida apenas para a vida individual. Uma verdade comum mete-nos medo, porque a
identificamos — como dissemos atrás — com a imposição intransigente dos totalitarismos;
mas, se ela é a verdade do amor, se é a verdade que se mostra no encontro pessoal com o Outro
e com os outros, então fica livre da reclusão no indivíduo e pode fazer parte do bem comum.
Sendo a verdade de um amor, não é verdade que se impõe pela violência, não é verdade que
esmaga o indivíduo; nascendo do amor pode chegar ao coração, ao centro pessoal de cada
homem; daqui resulta claramente que a fé não é intransigente, mas cresce na convivência que
respeita o outro. O crente não é arrogante; pelo contrário, a verdade torna-o humilde, sabendo
que, mais do que possuirmo-la nós, é ela que nos abraça e possui. Longe de nos endurecer, a
segurança da fé põe-nos a caminho e torna possível o testemunho e o diálogo com todos.
Por outro lado, enquanto unida à verdade do amor, a luz da fé não é alheia ao mundo material,
porque o amor vive-se sempre com corpo e alma; a luz da fé é luz encarnada, que dimana da
vida luminosa de Jesus. A fé ilumina também a matéria, confia na sua ordem, sabe que nela se
abre um caminho cada vez mais amplo de harmonia e compreensão. Deste modo, o olhar da
ciência tira benefício da fé: esta convida o cientista a permanecer aberto à realidade, em toda a
sua riqueza inesgotável. A fé desperta o sentido crítico, enquanto impede a pesquisa de se
deter, satisfeita, nas suas fórmulas e ajuda-a a compreender que a natureza sempre as
ultrapassa. Convidando a maravilhar-se diante do mistério da criação, a fé alarga os horizontes
da razão para iluminar melhor o mundo que se abre aos estudos da ciência.
A fé e a busca de Deus
35. A luz da fé em Jesus ilumina também o caminho de todos aqueles que procuram a Deus e
oferece a contribuição própria do cristianismo para o diálogo com os seguidores das diferentes
religiões. A Carta aos Hebreus fala-nos do testemunho dos justos que, antes da Aliança com
Abraão, já procuravam a Deus com fé; lá se diz, a propósito de Henoc, que « tinha agradado a
Deus », sendo isso impossível sem a fé, porque « quem se aproxima de Deus tem de acreditar
que Ele existe e recompensa aqueles que O procuram » (Heb 11, 5.6). Deste modo, é possível
compreender que o caminho do homem religioso passa pela confissão de um Deus que cuida
dele e que Se pode encontrar. Que outra recompensa poderia Deus oferecer àqueles que O
buscam, senão deixar-Se encontrar a Si mesmo? Ainda antes de Henoc, encontramos a figura
de Abel, de quem se louva igualmente a fé, em virtude da qual foram agradáveis a Deus os
seus dons, a oferenda dos primogénitos dos seus rebanhos (cf. Heb 11, 4). O homem religioso
procura reconhecer os sinais de Deus nas experiências diárias da sua vida, no ciclo das
estações, na fecundidade da terra e em todo o movimento do universo. Deus é luminoso,
podendo ser encontrado também por aqueles que O buscam de coração sincero.
Imagem desta busca são os Magos, guiados pela estrela até Belém (cf. Mt 2, 1-12). A luz de
Deus mostrou-se-lhes como caminho, como estrela que os guia ao longo duma estrada a
descobrir. Deste modo, a estrela fala da paciência de Deus com os nossos olhos, que devem
habituar-se ao seu fulgor. Encontrando-se a caminho, o homem religioso deve estar pronto a
deixar-se guiar, a sair de si mesmo para encontrar o Deus que não cessa de nos surpreender.
Este respeito de Deus pelos olhos do homem mostra-nos que, quando o homem se aproxima
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d’Ele, a luz humana não se dissolve na imensidão luminosa de Deus, como se fosse um estrela
absorvida pela aurora, mas torna-se tanto mais brilhante quanto mais perto fica do fogo
gerador, como um espelho que reflecte o resplendor. A confissão de Jesus, único Salvador,
afirma que toda a luz de Deus se concentrou n’Ele, na sua « vida luminosa », em que se revela
a origem e a consumação da história.[31] Não há nenhuma experiência humana, nenhum
itinerário do homem para Deus que não possa ser acolhido, iluminado e purificado por esta luz.
Quanto mais o cristão penetrar no círculo aberto pela luz de Cristo, tanto mais será capaz de
compreender e acompanhar o caminho de cada homem para Deus.
Configurando-se como caminho, a fé tem a ver também com a vida dos homens que, apesar de
não acreditar, desejam-no fazer e não cessam de procurar. Na medida em que se abrem, de
coração sincero, ao amor e se põem a caminho com a luz que conseguem captar, já vivem —
sem o saber — no caminho para a fé: procuram agir como se Deus existisse, seja porque
reconhecem a sua importância para encontrar directrizes firmes na vida comum, seja porque
sentem o desejo de luz no meio da escuridão, seja ainda porque, notando como é grande e bela
a vida, intuem que a presença de Deus ainda a tornaria maior. Santo Ireneu de Lião refere que
Abraão, antes de ouvir a voz de Deus, já O procurava « com o desejo ardente do seu coração »
e « percorria todo o mundo, perguntando-se onde pudesse estar Deus », até que « Deus teve
piedade daquele que, sozinho, O procurava no silêncio ».[32] Quem se põe a caminho para
praticar o bem, já se aproxima de Deus, já está sustentado pela sua ajuda, porque é próprio da
dinâmica da luz divina iluminar os nossos olhos, quando caminhamos para a plenitude do
amor.
Fé e teologia
36. Como luz que é, a fé convida-nos a penetrar nela, a explorar sempre mais o horizonte que
ilumina, para conhecer melhor o que amamos. Deste desejo nasce a teologia cristã; assim, é
claro que a teologia é impossível sem a fé e pertence ao próprio movimento da fé, que procura
a compreensão mais profunda da auto-revelação de Deus, culminada no Mistério de Cristo. A
primeira consequência é que, na teologia, não se verifica apenas um esforço da razão para
perscrutar e conhecer, como nas ciências experimentais. Deus não pode ser reduzido a objecto;
Ele é Sujeito que Se dá a conhecer e manifesta na relação pessoa a pessoa. A fé recta orienta a
razão para se abrir à luz que vem de Deus, a fim de que ela, guiada pelo amor à verdade, possa
conhecer Deus de forma mais profunda. Os grandes doutores e teólogos medievais declararam
que a teologia, enquanto ciência da fé, é uma participação no conhecimento que Deus tem de
Si mesmo. Por isso, a teologia não é apenas palavra sobre Deus, mas, antes de tudo,
acolhimento e busca de uma compreensão mais profunda da palavra que Deus nos dirige:
palavra que Deus pronuncia sobre Si mesmo, porque é um diálogo eterno de comunhão, no
âmbito do qual é admitido o homem.[33] Assim, é própria da teologia a humildade, que se
deixa « tocar » por Deus, reconhece os seus limites face ao Mistério e se encoraja a explorar,
com a disciplina própria da razão, as riquezas insondáveis deste Mistério.
Além disso, a teologia partilha a forma eclesial da fé; a sua luz é a luz do sujeito crente que é a
Igreja. Isto implica, por um lado, que a teologia esteja ao serviço da fé dos cristãos, vise
humildemente preservar e aprofundar o crer de todos, sobretudo dos mais simples; e por outro,
dado que vive da fé, a teologia não considera o magistério do Papa e dos Bispos em comunhão
com ele como algo de extrínseco, um limite à sua liberdade, mas, pelo contrário, como um dos
seus momentos internos constitutivos, enquanto o magistério assegura o contacto com a fonte
originária, oferecendo assim a certeza de beber na Palavra de Cristo em toda a sua integridade.
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CAPÍTULO III
TRANSMITO-VOS AQUILO QUE RECEBI
(cf. 1 Cor 15, 3)
A Igreja, mãe da nossa fé
37. Quem se abriu ao amor de Deus, acolheu a sua voz e recebeu a sua luz, não pode guardar
este dom para si mesmo. Uma vez que é escuta e visão, a fé transmite-se também como palavra
e como luz; dirigindo-se aos Coríntios, o apóstolo Paulo utiliza precisamente estas duas
imagens. Por um lado, diz: « Animados do mesmo espírito de fé, conforme o que está escrito:
Acreditei e por isso falei, também nós acreditamos e por isso falamos » (2 Cor 4, 13); a palavra
recebida faz-se resposta, confissão, e assim ecoa para os outros, convidando-os a crer. Por
outro, São Paulo refere-se também à luz: « E nós todos que, com o rosto descoberto,
reflectimos a glória do Senhor, somos transfigurados na sua própria imagem » (2 Cor 3, 18); é
uma luz que se reflecte de rosto em rosto, como sucedeu com Moisés cujo rosto reflectia a
glória de Deus depois de ter falado com Ele: « [Deus] brilhou nos nossos corações, para
irradiar o conhecimento da glória de Deus, que resplandece na face de Cristo » (2 Cor 4, 6). A
luz de Jesus brilha no rosto dos cristãos como num espelho, e assim se difunde chegando até
nós, para que também nós possamos participar desta visão e reflectir para outros a sua luz, da
mesma forma que a luz do círio, na liturgia de Páscoa, acende muitas outras velas. A fé
transmite-se por assim dizer sob a forma de contacto, de pessoa a pessoa, como uma chama se
acende noutra chama. Os cristãos, na sua pobreza, lançam uma semente tão fecunda que se
torna uma grande árvore, capaz de encher o mundo de frutos.
38. A transmissão da fé, que brilha para as pessoas de todos os lugares, passa também através
do eixo do tempo, de geração em geração. Dado que a fé nasce de um encontro que acontece
na história e ilumina o nosso caminho no tempo, a mesma deve ser transmitida ao longo dos
séculos. É através de uma cadeia ininterrupta de testemunhos que nos chega o rosto de Jesus.
Como é possível isto? Como se pode estar seguro de beber no « verdadeiro Jesus » através dos
séculos? Se o homem fosse um indivíduo isolado, se quiséssemos partir apenas do « eu »
individual, que pretende encontrar em si mesmo a firmeza do seu conhecimento, tal certeza
seria impossível; não posso, por mim mesmo, ver aquilo que aconteceu numa época tão
distante de mim. Mas, esta não é a única maneira de o homem conhecer; a pessoa vive sempre
em relação: provém de outros, pertence a outros, a sua vida torna-se maior no encontro com os
outros; o próprio conhecimento e consciência de nós mesmos são de tipo relacional e estão
ligados a outros que nos precederam, a começar pelos nossos pais que nos deram a vida e o
nome. A própria linguagem, as palavras com que interpretamos a nossa vida e a realidade
inteira chegam-nos através dos outros, conservadas na memória viva de outros; o
conhecimento de nós mesmos só é possível quando participamos duma memória mais ampla.
O mesmo acontece com a fé, que leva à plenitude o modo humano de entender: o passado da
fé, aquele acto de amor de Jesus que gerou no mundo uma vida nova, chega até nós na
memória de outros, das testemunhas, guardado vivo naquele sujeito único de memória que é a
Igreja; esta é uma Mãe que nos ensina a falar a linguagem da fé. São João insistiu sobre este
aspecto no seu Evangelho, unindo conjuntamente fé e memória e associando as duas à acção
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do Espírito Santo que, como diz Jesus, « há-de recordar-vos tudo » (Jo 14, 26). O Amor, que é
o Espírito e que habita na Igreja, mantém unidos entre si todos os tempos e faz-nos
contemporâneos de Jesus, tornando-Se assim o guia do nosso caminho na fé.
39. É impossível crer sozinhos. A fé não é só uma opção individual que se realiza na
interioridade do crente, não é uma relação isolada entre o « eu » do fiel e o « Tu » divino, entre
o sujeito autónomo e Deus; mas, por sua natureza, abre-se ao « nós », verifica-se sempre dentro
da comunhão da Igreja. Assim no-lo recorda a forma dialogada do Credo, que se usa na liturgia
baptismal. O crer exprime-se como resposta a um convite, a uma palavra que não provém de
mim, mas deve ser escutada; por isso, insere-se no interior de um diálogo, não pode ser uma
mera confissão que nasce do indivíduo: só é possível responder « creio » em primeira pessoa,
porque se pertence a uma comunhão grande, dizendo também « cremos ». Esta abertura ao «
nós » eclesial realiza-se de acordo com a abertura própria do amor de Deus, que não é apenas
relação entre o Pai e o Filho, entre « eu » e « tu », mas, no Espírito, é também um « nós », uma
comunhão de pessoas. Por isso mesmo, quem crê nunca está sozinho; e, pela mesma razão, a fé
tende a difundir-se, a convidar outros para a sua alegria. Quem recebe a fé, descobre que os
espaços do próprio « eu » se alargam, gerando-se nele novas relações que enriquecem a vida.
Assim o exprimiu vigorosamente Tertuliano ao dizer do catecúmeno que, tendo sido recebido
numa nova família « depois do banho do novo nascimento », é acolhido na casa da Mãe para
erguer as mãos e rezar, juntamente com os irmãos, o Pai Nosso.[34]
Os sacramentos e a transmissão da fé
40. Como sucede em cada família, a Igreja transmite aos seus filhos o conteúdo da sua
memória. Como se deve fazer esta transmissão de modo que nada se perca, mas antes que tudo
se aprofunde cada vez mais na herança da fé? É através da Tradição Apostólica, conservada na
Igreja com a assistência do Espírito Santo, que temos contacto vivo com a memória fundadora.
E aquilo que foi transmitido pelos Apóstolos, como afirma o Concílio Ecuménico Vaticano II,
« abrange tudo quanto contribui para a vida santa do Povo de Deus e para o aumento da sua fé;
e assim a Igreja, na sua doutrina, vida e culto, perpetua e transmite a todas as gerações tudo
aquilo que ela é e tudo quanto acredita ».[35]
De facto, a fé tem necessidade de um âmbito onde se possa testemunhar e comunicar, e que o
mesmo seja adequado e proporcionado ao que se comunica. Para transmitir um conteúdo
meramente doutrinal, uma ideia, talvez bastasse um livro ou a repetição de uma mensagem
oral; mas aquilo que se comunica na Igreja, o que se transmite na sua Tradição viva é a luz
nova que nasce do encontro com o Deus vivo, uma luz que toca a pessoa no seu íntimo, no
coração, envolvendo a sua mente, vontade e afectividade, abrindo-a a relações vivas na
comunhão com Deus e com os outros. Para se transmitir tal plenitude, existe um meio especial
que põe em jogo a pessoa inteira: corpo e espírito, interioridade e relações. Este meio são os
sacramentos celebrados na liturgia da Igreja: neles, comunica-se uma memória encarnada,
ligada aos lugares e épocas da vida, associada com todos os sentidos; neles, a pessoa é
envolvida, como membro de um sujeito vivo, num tecido de relações comunitárias. Por isso, se
é verdade que os sacramentos são os sacramentos da fé,[36] há que afirmar também que a fé
tem uma estrutura sacramental; o despertar da fé passa pelo despertar de um novo sentido
sacramental na vida do homem e na existência cristã, mostrando como o visível e o material se
abrem para o mistério do eterno.
41. A transmissão da fé verifica-se, em primeiro lugar, através do Baptismo. Poderia parecer
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que este sacramento fosse apenas um modo para simbolizar a confissão de fé, um acto
pedagógico para quem precise de imagens e gestos, e do qual seria possível fundamentalmente
prescindir. Mas não é assim, como no-lo recorda uma palavra de São Paulo: « Pelo Baptismo
fomos sepultados com Cristo na morte, para que, tal como Cristo foi ressuscitado de entre os
mortos pela glória do Pai, também nós caminhemos numa vida nova » (Rm 6, 4); nele,
tornamo-nos nova criatura e filhos adoptivos de Deus. E mais adiante o Apóstolo diz que o
cristão foi confiado a uma « forma de ensino » (typos didachés), a que obedece de coração (cf.
Rm 6, 17): no Baptismo, o homem recebe também uma doutrina que deve professar e uma
forma concreta de vida que requer o envolvimento de toda a sua pessoa, encaminhando-a para
o bem; é transferido para um novo âmbito, confiado a um novo ambiente, a uma nova maneira
comum de agir, na Igreja. Deste modo, o Baptismo recorda-nos que a fé não é obra do
indivíduo isolado, não é um acto que o homem possa realizar contando apenas com as próprias
forças, mas tem de ser recebida, entrando na comunhão eclesial que transmite o dom de Deus:
ninguém se baptiza a si mesmo, tal como ninguém vem sozinho à existência. Fomos
baptizados.
42. Quais são os elementos baptismais que nos introduzem nesta nova « forma de ensino »?
Sobre o catecúmeno é invocado, em primeiro lugar, o nome da Trindade: Pai, Filho e Espírito
Santo. E deste modo se oferece, logo desde o princípio, uma síntese do caminho da fé: o Deus
que chamou Abraão e quis chamar-Se seu Deus, o Deus que revelou o seu nome a Moisés, o
Deus que, ao entregar-nos o seu Filho, nos revelou plenamente o mistério do seu Nome, dá à
pessoa baptizada uma nova identidade filial. Desta forma, se evidencia o sentido da imersão na
água que se realiza no Baptismo: a água é, simultaneamente, símbolo de morte, que nos
convida a passar pela conversão do « eu » tendo em vista a sua abertura a um « Eu » maior, e
símbolo de vida, do ventre onde renascemos para seguir Cristo na sua nova existência. Deste
modo, através da imersão na água, o Baptismo fala-nos da estrutura encarnada da fé. A acção
de Cristo toca-nos na nossa realidade pessoal, transformando-nos radicalmente, tornando-nos
filhos adoptivos de Deus, participantes da natureza divina; e assim modifica todas as nossas
relações, a nossa situação concreta na terra e no universo, abrindo-as à própria vida de
comunhão d’Ele. Este dinamismo de transformação próprio do Baptismo ajuda-nos a perceber
a importância do catecumenato, que hoje — mesmo em sociedades de antigas raízes cristãs,
onde um número crescente de adultos se aproxima do sacramento baptismal — se reveste de
singular relevância para a nova evangelização. É o itinerário de preparação para o Baptismo,
para a transformação da vida inteira em Cristo.
Para compreender a ligação entre o Baptismo e a fé, pode ajudar-nos a recordação de um texto
do profeta Isaías, que já aparece associado com o Baptismo na literatura cristã antiga: « Terá o
seu refúgio em rochas elevadas, terá (…) água em abundância » (Is 33, 16).[37] Resgatado da
morte pela água, o baptizado pode manter-se de pé sobre « rochas elevadas », porque
encontrou a solidez à qual confiar-se; e, assim, a água de morte transformou-se em água de
vida. O texto grego descrevia-a como água pistòs, água « fiel »: a água do Baptismo é fiel,
podendo confiar-nos a ela porque a sua corrente entra na dinâmica de amor de Jesus, fonte de
segurança para o nosso caminho na vida.
43. A estrutura do Baptismo, a sua configuração como renascimento no qual recebemos um
nome novo e uma vida nova, ajuda-nos a compreender o sentido e a importância do Baptismo
das crianças. Uma criança não é capaz de um acto livre que acolha a fé: ainda não a pode
confessar sozinha e, por isso mesmo, é confessada pelos seus pais e pelos padrinhos em nome
dela. A fé é vivida no âmbito da comunidade da Igreja, insere-se num « nós » comum. Assim,
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a criança pode ser sustentada por outros, pelos seus pais e padrinhos, e pode ser acolhida na fé
deles que é a fé da Igreja, simbolizada pela luz que o pai toma do círio na liturgia baptismal.
Esta estrutura do Baptismo põe em evidência a importância da sinergia entre a Igreja e a
família na transmissão da fé. Os pais são chamados — como diz Santo Agostinho — não só a
gerar os filhos para a vida, mas a levá-los a Deus, para que sejam, através do Baptismo,
regenerados como filhos de Deus, recebam o dom da fé.[38] Assim, juntamente com a vida,
é-lhes dada a orientação fundamental da existência e a segurança de um bom futuro; orientação
esta, que será ulteriormente corroborada no sacramento da Confirmação com o selo indelével
do Espírito Santo.
44. A natureza sacramental da fé encontra a sua máxima expressão na Eucaristia. Esta é
alimento precioso da fé, encontro com Cristo presente de maneira real no seu acto supremo de
amor: o dom de Si mesmo que gera vida. Na Eucaristia, temos o cruzamento dos dois eixos
sobre os quais a fé percorre o seu caminho. Por um lado, o eixo da história: a Eucaristia é acto
de memória, actualização do mistério, em que o passado, como um evento de morte e
ressurreição, mostra a sua capacidade de se abrir ao futuro, de antecipar a plenitude final; no-lo
recorda a liturgia com o seu hodie, o « hoje » dos mistérios da salvação. Por outro lado,
encontra-se aqui também o eixo que conduz do mundo visível ao invisível: na Eucaristia,
aprendemos a ver a profundidade do real. O pão e o vinho transformam-se no Corpo e Sangue
de Cristo, que Se faz presente no seu caminho pascal para o Pai: este movimento introduz-nos,
corpo e alma, no movimento de toda a criação para a sua plenitude em Deus.
45. Na celebração dos sacramentos, a Igreja transmite a sua memória, particularmente com a
profissão de fé. Nesta, não se trata tanto de prestar assentimento a um conjunto de verdades
abstractas, como sobretudo fazer a vida toda entrar na comunhão plena com o Deus Vivo.
Podemos dizer que, no Credo, o fiel é convidado a entrar no mistério que professa e a deixar-se
transformar por aquilo que confessa. Para compreender o sentido desta afirmação, pensemos
em primeiro lugar no conteúdo do Credo. Este tem uma estrutura trinitária: o Pai e o Filho
unem-Se no Espírito de amor. Deste modo o crente afirma que o centro do ser, o segredo mais
profundo de todas as coisas é a comunhão divina. Além disso, o Credo contém uma confissão
cristológica: repassam-se os mistérios da vida de Jesus até à sua morte, ressurreição e ascensão
ao Céu, na esperança da sua vinda final na glória. E, consequentemente, afirma-se que este
Deus-comunhão, permuta de amor entre o Pai e o Filho no Espírito, é capaz de abraçar a
história do homem, de introduzi-lo no seu dinamismo de comunhão, que tem, no Pai, a sua
origem e meta final. Aquele que confessa a fé sente-se implicado na verdade que confessa; não
pode pronunciar, com verdade, as palavras do Credo, sem ser por isso mesmo transformado,
sem mergulhar na história de amor que o abraça, que dilata o seu ser tornando-o parte de uma
grande comunhão, do sujeito último que pronuncia o Credo: a Igreja. Todas as verdades, em
que cremos, afirmam o mistério da vida nova da fé como caminho de comunhão com o Deus
Vivo.
Fé, oração e Decálogo
46. Há mais dois elementos que são essenciais na transmissão fiel da memória da Igreja. O
primeiro é a Oração do Senhor, o Pai Nosso; nela, o cristão aprende a partilhar a própria
experiência espiritual de Cristo e começa a ver com os olhos d’Ele. A partir d’Aquele que é
Luz da Luz, do Filho Unigénito do Pai, também nós conhecemos a Deus e podemos inflamar
outros no desejo de se aproximarem d’Ele.
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Igualmente importante é ainda a ligação entre a fé e o Decálogo. Dissemos já que a fé se
apresenta como um caminho, uma estrada a percorrer, aberta pelo encontro com o Deus vivo;
por isso, à luz da fé, da entrega total ao Deus que salva, o Decálogo adquire a sua verdade mais
profunda, contida nas palavras que introduzem os Dez Mandamentos: « Eu sou o Senhor, teu
Deus, que te fiz sair da terra do Egipto » (Ex 20, 2). O Decálogo não é um conjunto de
preceitos negativos, mas de indicações concretas para sair do deserto do « eu »
auto-referencial, fechado em si mesmo, e entrar em diálogo com Deus, deixando-se abraçar
pela sua misericórdia a fim de a irradiar. Deste modo, a fé confessa o amor de Deus, origem e
sustentáculo de tudo, deixa-se mover por este amor para caminhar rumo à plenitude da
comunhão com Deus. O Decálogo aparece como o caminho da gratidão, da resposta de amor,
que é possível porque, na fé, nos abrimos à experiência do amor de Deus que nos transforma. E
este caminho recebe uma luz nova de tudo aquilo que Jesus ensina no Sermão da Montanha
(cf. Mt 5 - 7).
Toquei assim os quatro elementos que resumem o tesouro de memória que a Igreja transmite: a
confissão de fé, a celebração dos sacramentos, o caminho do Decálogo, a oração. À volta deles
se estruturou tradicionalmente a catequese da Igreja, como se pode ver no Catecismo da Igreja
Católica, instrumento fundamental para aquele acto com que a Igreja comunica o conteúdo
inteiro da fé, « tudo aquilo que ela é e tudo quanto acredita ».[39]
A unidade e a integridade da fé
47. A unidade da Igreja, no tempo e no espaço, está ligada com a unidade da fé: « Há um só
Corpo e um só Espírito, (...) uma só fé » (Ef 4, 4-5). Hoje poderá parecer realizável a união dos
homens com base num compromisso comum, na amizade, na partilha da mesma sorte com
uma meta comum; mas sentimos muita dificuldade em conceber uma unidade na mesma
verdade; parece-nos que uma união do género se oporia à liberdade do pensamento e à
autonomia do sujeito. Pelo contrário, a experiência do amor diz-nos que é possível termos uma
visão comum precisamente no amor: neste, aprendemos a ver a realidade com os olhos do
outro e isto, longe de nos empobrecer, enriquece o nosso olhar. O amor verdadeiro, à medida
do amor divino, exige a verdade e, no olhar comum da verdade que é Jesus Cristo, torna-se
firme e profundo. Esta é também a alegria da fé: a unidade de visão num só corpo e num só
espírito. Neste sentido, São Leão Magno podia afirmar: « Se a fé não é una, não é fé ».[40]
Qual é o segredo desta unidade? A fé é una, em primeiro lugar, pela unidade de Deus
conhecido e confessado. Todos os artigos de fé se referem a Ele, são caminhos para conhecer o
seu ser e o seu agir; por isso, possuem uma unidade superior a tudo quanto possamos construir
com o nosso pensamento, possuem a unidade que nos enriquece, porque se comunica a nós e
nos torna um.
Depois, a fé é una, porque se dirige ao único Senhor, à vida de Jesus, à história concreta que
Ele partilha connosco. Santo Ireneu de Lião deixou isto claro, contrapondo-o aos hereges
gnósticos. Estes sustentavam a existência de dois tipos de fé: uma fé rude, a fé dos simples,
imperfeita, que se mantinha ao nível da carne de Cristo e da contemplação dos seus mistérios;
e outro tipo de fé mais profunda e perfeita, a fé verdadeira reservada para um círculo restrito de
iniciados, que se elevava com o intelecto para além da carne de Jesus rumo aos mistérios da
divindade desconhecida. Contra esta pretensão, que ainda em nossos dias continua a ter o seu
encanto e os seus seguidores, Santo Ireneu reafirma que a fé é uma só, porque passa sempre
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pelo ponto concreto da encarnação, sem nunca superar a carne e a história de Cristo, dado que
Deus Se quis revelar plenamente nela. É por isso que não há diferença, na fé, entre « aquele
que é capaz de falar dela mais tempo » e « aquele que fala pouco », entre aquele que é mais
dotado e quem se mostra menos capaz: nem o primeiro pode ampliar a fé, nem o segundo
diminuí-la.[41]
Por último, a fé é una, porque é partilhada por toda a Igreja, que é um só corpo e um só
Espírito: na comunhão do único sujeito que é a Igreja, recebemos um olhar comum.
Confessando a mesma fé, apoiamo-nos sobre a mesma rocha, somos transformados pelo
mesmo Espírito de amor, irradiamos uma única luz e temos um único olhar para penetrar na
realidade.
48. Dado que a fé é uma só, deve-se confessar em toda a sua pureza e integridade.
Precisamente porque todos os artigos da fé estão unitariamente ligados, negar um deles —
mesmo dos que possam parecer menos importantes — equivale a danificar o todo. Cada época
pode encontrar pontos da fé mais fáceis ou mais difíceis de aceitar; por isso, é importante
vigiar para que se transmita todo o depósito da fé (cf. 1 Tm 6, 20) e para que se insista
oportunamente sobre todos os aspectos da confissão de fé. De facto, visto que a unidade da fé é
a unidade da Igreja, tirar algo à fé é fazê-lo à verdade da comunhão. Os Padres descreveram a
fé como um corpo, o corpo da verdade, com diversos membros, analogamente ao que se passa
no corpo de Cristo com o seu prolongamento na Igreja.[42] A integridade da fé foi associada
também com a imagem da Igreja virgem, com o seu amor esponsal fiel a Cristo: danificar a fé
significa danificar a comunhão com o Senhor.[43] A unidade da fé é, por conseguinte, a de um
organismo vivo, como bem evidenciou o Beato John Henry Newman, quando enumera, entre
as notas características para distinguir a continuidade da doutrina no tempo, o seu poder de
assimilar em si tudo o que encontra, nos diversos âmbitos em que se torna presente, nas
diversas culturas que encontra,[44] tudo purificando e levando à sua melhor expressão. É assim
que a fé se mostra universal, católica, porque a sua luz cresce para iluminar todo o universo,
toda a história.
49. Como serviço à unidade da fé e à sua transmissão íntegra, o Senhor deu à Igreja o dom da
sucessão apostólica. Por seu intermédio, fica garantida a continuidade da memória da Igreja, e
é possível beber, com certeza, na fonte pura donde surge a fé; assim a garantia da ligação com
a origem é-nos dada por pessoas vivas, o que equivale à fé viva que a Igreja transmite. Esta fé
viva assenta sobre a fidelidade das testemunhas que foram escolhidas pelo Senhor para tal
tarefa; por isso, o magistério fala sempre em obediência à Palavra originária, sobre a qual se
baseia a fé, e é fiável porque se entrega à Palavra que escuta, guarda e expõe.[45] No discurso
de despedida aos anciãos de Éfeso, em Mileto, referido por São Lucas nos Actos dos
Apóstolos, São Paulo atesta que cumpriu o encargo, que lhe foi confiado pelo Senhor, de lhes
anunciar toda a vontade de Deus (cf. Act 20, 27); é graças ao magistério da Igreja que nos pode
chegar, íntegra, esta vontade e, com ela, a alegria de a podermos cumprir plenamente.
CAPÍTULO IV
DEUS PREPARA
PARA ELES UMA CIDADE
(cf. Heb 11, 16)
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A fé e o bem comum
50. Ao apresentar a história dos patriarcas e dos justos do Antigo Testamento, a Carta aos
Hebreus põe em relevo um aspecto essencial da sua fé; esta não se apresenta apenas como um
caminho, mas também como edificação, preparação de um lugar onde os homens possam
habitar uns com os outros. O primeiro construtor é Noé, que, na arca, consegue salvar a sua
família (cf. Heb 11, 7). Depois aparece Abraão, de quem se diz que, pela fé, habitara em
tendas, esperando a cidade de alicerces firmes (cf. Heb 11, 9-10). Vemos assim surgir,
relacionada com a fé, uma nova fiabilidade, uma nova solidez, que só Deus pode dar. Se o
homem de fé assenta sobre o Deus-Amen, o Deus fiel (cf. Is 65, 16), tornando-se assim firme
ele mesmo, podemos acrescentar que a firmeza da fé se refere também à cidade que Deus está
a preparar para o homem. A fé revela quão firmes podem ser os vínculos entre os homens,
quando Deus Se torna presente no meio deles. Não evoca apenas uma solidez interior, uma
convicção firme do crente; a fé ilumina também as relações entre os homens, porque nasce do
amor e segue a dinâmica do amor de Deus. O Deus fiável dá aos homens uma cidade fiável.
51. Devido precisamente à sua ligação com o amor (cf. Gl 5, 6), a luz da fé coloca-se ao
serviço concreto da justiça, do direito e da paz. A fé nasce do encontro com o amor gerador de
Deus que mostra o sentido e a bondade da nossa vida; esta é iluminada na medida em que entra
no dinamismo aberto por este amor, isto é, enquanto se torna caminho e exercício para a
plenitude do amor. A luz da fé é capaz de valorizar a riqueza das relações humanas, a sua
capacidade de perdurarem, serem fiáveis, enriquecerem a vida comum. A fé não afasta do
mundo, nem é alheia ao esforço concreto dos nossos contemporâneos. Sem um amor fiável,
nada poderia manter verdadeiramente unidos os homens: a unidade entre eles seria concebível
apenas enquanto fundada sobre a utilidade, a conjugação dos interesses, o medo, mas não sobre
a beleza de viverem juntos, nem sobre a alegria que a simples presença do outro pode gerar. A
fé faz compreender a arquitectura das relações humanas, porque identifica o seu fundamento
último e destino definitivo em Deus, no seu amor, e assim ilumina a arte da sua construção,
tornando-se um serviço ao bem comum. Por isso, a fé é um bem para todos, um bem comum: a
sua luz não ilumina apenas o âmbito da Igreja nem serve somente para construir uma cidade
eterna no além, mas ajuda também a construir as nossas sociedades de modo que caminhem
para um futuro de esperança. A Carta aos Hebreus oferece um exemplo disto mesmo, ao
nomear entre os homens de fé Samuel e David, a quem a fé permitiu « exercerem a justiça »
(11, 33). A expressão refere-se aqui à sua justiça no governar, àquela sabedoria que traz a paz
ao povo (cf. 1 Sm 12, 3-5; 2 Sm 8, 15). As mãos da fé levantam-se para o céu, mas fazem-no ao
mesmo tempo que edificam, na caridade, uma cidade construída sobre relações que têm como
alicerce o amor de Deus.
A fé e a família
52. No caminho de Abraão para a cidade futura, a Carta aos Hebreus alude à bênção que se
transmite dos pais aos filhos (cf. 11, 20-21). O primeiro âmbito da cidade dos homens
iluminado pela fé é a família; penso, antes de mais nada, na união estável do homem e da
mulher no matrimónio. Tal união nasce do seu amor, sinal e presença do amor de Deus, nasce
do reconhecimento e aceitação do bem que é a diferença sexual, em virtude da qual os
cônjuges se podem unir numa só carne (cf. Gn 2, 24) e são capazes de gerar uma nova vida,
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manifestação da bondade do Criador, da sua sabedoria e do seu desígnio de amor. Fundados
sobre este amor, homem e mulher podem prometer-se amor mútuo com um gesto que
compromete a vida inteira e que lembra muitos traços da fé: prometer um amor que dure para
sempre é possível quando se descobre um desígnio maior que os próprios projectos, que nos
sustenta e permite doar o futuro inteiro à pessoa amada. Depois, a fé pode ajudar a individuar
em toda a sua profundidade e riqueza a geração dos filhos, porque faz reconhecer nela o amor
criador que nos dá e nos entrega o mistério de uma nova pessoa; foi assim que Sara, pela sua
fé, se tornou mãe, apoiando-se na fidelidade de Deus à sua promessa (cf. Heb 11, 11).
53. Em família, a fé acompanha todas as idades da vida, a começar pela infância: as crianças
aprendem a confiar no amor de seus pais. Por isso, é importante que os pais cultivem práticas
de fé comuns na família, que acompanhem o amadurecimento da fé dos filhos. Sobretudo os
jovens, que atravessam uma idade da vida tão complexa, rica e importante para a fé, devem
sentir a proximidade e a atenção da família e da comunidade eclesial no seu caminho de
crescimento da fé. Todos vimos como, nas Jornadas Mundiais da Juventude, os jovens
mostram a alegria da fé, o compromisso de viver uma fé cada vez mais sólida e generosa. Os
jovens têm o desejo de uma vida grande; o encontro com Cristo, o deixar-se conquistar e guiar
pelo seu amor alarga o horizonte da existência, dá-lhe uma esperança firme que não desilude.
A fé não é um refúgio para gente sem coragem, mas a dilatação da vida: faz descobrir uma
grande chamada — a vocação ao amor — e assegura que este amor é fiável, que vale a pena
entregar-se a ele, porque o seu fundamento se encontra na fidelidade de Deus, que é mais forte
do que toda a nossa fragilidade.
Uma luz para a vida em sociedade
54. Assimilada e aprofundada em família, a fé torna-se luz para iluminar todas as relações
sociais. Como experiência da paternidade e da misericórdia de Deus, dilata-se depois em
caminho fraterno. Na Idade Moderna, procurou-se construir a fraternidade universal entre os
homens, baseando-se na sua igualdade; mas, pouco a pouco, fomos compreendendo que esta
fraternidade, privada do referimento a um Pai comum como seu fundamento último, não
consegue subsistir; por isso, é necessário voltar à verdadeira raiz da fraternidade. Desde o seu
início, a história de fé foi uma história de fraternidade, embora não desprovida de conflitos.
Deus chama Abraão para sair da sua terra, prometendo fazer dele uma única e grande nação,
um grande povo, sobre o qual repousa a Bênção divina (cf. Gn 12, 1-3). À medida que a
história da salvação avança, o homem descobre que Deus quer fazer a todos participar como
irmãos da única bênção, que encontra a sua plenitude em Jesus, para que todos se tornem um
só. O amor inexaurível do Pai é-nos comunicado em Jesus, também através da presença do
irmão. A fé ensina-nos a ver que, em cada homem, há uma bênção para mim, que a luz do
rosto de Deus me ilumina através do rosto do irmão.
Quantos benefícios trouxe o olhar da fé cristã à cidade dos homens para a sua vida em comum!
Graças à fé, compreendemos a dignidade única de cada pessoa, que não era tão evidente no
mundo antigo. No século II, o pagão Celso censurava os cristãos por algo que lhe parecia uma
ilusão e um engano: pensar que Deus tivesse criado o mundo para o homem, colocando-o no
vértice do universo inteiro. « Porquê pretender que [a verdura] cresça para os homens, em vez
de crescer para os mais selvagens dos animais sem razão? »[46] « Se olhássemos a terra do alto
do céu, que diferença se nos ofereceria entre as nossas actividades e as das formigas e das
abelhas? »[47] No centro da fé bíblica, há o amor de Deus, o seu cuidado concreto por cada
pessoa, o seu desejo de salvação que abraça toda a humanidade e a criação inteira e que atinge
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o clímax na encarnação, morte e ressurreição de Jesus Cristo. Quando se obscurece esta
realidade, falta o critério para individuar o que torna preciosa e única a vida do homem; e este
perde o seu lugar no universo, extravia-se na natureza, renunciando à própria responsabilidade
moral, ou então pretende ser árbitro absoluto, arrogando-se um poder de manipulação sem
limites.
55. Além disso a fé, ao revelar-nos o amor de Deus Criador, faz-nos olhar com maior respeito
para a natureza, fazendo-nos reconhecer nela uma gramática escrita por Ele e uma habitação
que nos foi confiada para ser cultivada e guardada; ajuda-nos a encontrar modelos de
progresso, que não se baseiem apenas na utilidade e no lucro mas considerem a criação como
dom, de que todos somos devedores; ensina-nos a individuar formas justas de governo,
reconhecendo que a autoridade vem de Deus para estar ao serviço do bem comum. A fé afirma
também a possibilidade do perdão, que muitas vezes requer tempo, canseira, paciência e
empenho; um perdão possível quando se descobre que o bem é sempre mais originário e mais
forte que o mal, que a palavra com que Deus afirma a nossa vida é mais profunda do que todas
as nossas negações. Aliás, mesmo dum ponto de vista simplesmente antropológico, a unidade é
superior ao conflito; devemos preocupar-nos também com o conflito, mas vivendo-o de tal
modo que nos leve a resolvê-lo, a superá-lo, como elo duma cadeia, num avanço para a
unidade.
Quando a fé esmorece, há o risco de esmorecerem também os fundamentos do viver, como
advertia o poeta Thomas Sterls Eliot: « Precisais porventura que se vos diga que até aqueles
modestos sucessos / que vos permitem ser orgulhosos de uma sociedade educada / dificilmente
sobreviveriam à fé, a que devem o seu significado? »[48] Se tiramos a fé em Deus das nossas
cidades, enfraquecer-se-á a confiança entre nós, apenas o medo nos manterá unidos, e a
estabilidade ficará ameaçada. Afirma a Carta aos Hebreus: « Deus não Se envergonha de ser
chamado o "seu Deus", porque preparou para eles uma cidade » (Heb 11, 16). A expressão «
não se envergonha » tem conotado um reconhecimento público: pretende-se afirmar que Deus,
com o seu agir concreto, confessa publicamente a sua presença entre nós, o seu desejo de
tornar firmes as relações entre os homens. Porventura vamos ser nós a envergonhar-nos de
chamar a Deus « o nosso Deus »? Seremos por acaso nós a recusar-nos a confessá-Lo como tal
na nossa vida pública, a propor a grandeza da vida comum que Ele torna possível? A fé
ilumina a vida social: possui uma luz criadora para cada momento novo da história, porque
coloca todos os acontecimentos em relação com a origem e o destino de tudo no Pai que nos
ama.
Uma força consoladora no sofrimento
56. São Paulo, falando aos cristãos de Corinto das suas tribulações e sofrimentos, coloca a sua
fé em relação com a pregação do Evangelho. De facto, diz que nele se cumpre esta passagem
da Escritura: « Acreditei e por isso falei » (2 Cor 4, 13). O Apóstolo refere-se a uma frase do
Salmo 116, onde o salmista exclama: « Eu tinha confiança, mesmo quando disse: "A minha
aflição é muito grande!" » (v. 10). Falar da fé comporta frequentemente falar também de provas
dolorosas, mas é precisamente nelas que São Paulo vê o anúncio mais convincente do
Evangelho, porque é na fraqueza e no sofrimento que sobressai e se descobre o poder de Deus
que supera a nossa fraqueza e o nosso sofrimento. O próprio Apóstolo se encontra numa
situação de morte que redunda em vida para os cristãos (cf. 2 Cor 4, 7-12). Na hora da prova, a
fé ilumina-nos; e é precisamente no sofrimento e na fraqueza que se torna claro como « não
nos pregamos a nós mesmos, mas a Cristo Jesus, o Senhor » (2 Cor 4, 5). O capítulo 11 da
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Carta aos Hebreus termina com a referência a quantos sofreram pela fé, entre os quais ocupa
um lugar particular Moisés que tomou sobre si a humilhação de Cristo (cf. vv. 26.35-38). O
cristão sabe que o sofrimento não pode ser eliminado, mas pode adquirir um sentido: pode
tornar-se acto de amor, entrega nas mãos de Deus que não nos abandona e, deste modo, ser
uma etapa de crescimento na fé e no amor. Contemplando a união de Cristo com o Pai, mesmo
no momento de maior sofrimento na cruz (cf. Mc 15, 34), o cristão aprende a participar no
olhar próprio de Jesus; até a morte fica iluminada, podendo ser vivida como a última chamada
da fé, o último « Sai da tua terra » (cf. Gn 12, 1), o último « Vem! » pronunciado pelo Pai, a
quem nos entregamos com a confiança de que Ele nos tornará firmes também na passagem
definitiva.
57. A luz da fé não nos faz esquecer os sofrimentos do mundo. Os que sofrem foram
mediadores de luz para tantos homens e mulheres de fé; tal foi o leproso para São Francisco de
Assis, ou os pobres para a Beata Teresa de Calcutá. Compreenderam o mistério que há neles;
aproximando-se deles, certamente não cancelaram todos os seus sofrimentos, nem puderam
explicar todo o mal. A fé não é luz que dissipa todas as nossas trevas, mas lâmpada que guia os
nossos passos na noite, e isto basta para o caminho. Ao homem que sofre, Deus não dá um
raciocínio que explique tudo, mas oferece a sua resposta sob a forma duma presença que o
acompanha, duma história de bem que se une a cada história de sofrimento para nela abrir uma
brecha de luz. Em Cristo, o próprio Deus quis partilhar connosco esta estrada e oferecer-nos o
seu olhar para nela vermos a luz. Cristo é aquele que, tendo suportado a dor, Se tornou « autor
e consumador da fé » (Heb 12, 2).
O sofrimento recorda-nos que o serviço da fé ao bem comum é sempre serviço de esperança
que nos faz olhar em frente, sabendo que só a partir de Deus, do futuro que vem de Jesus
ressuscitado, é que a nossa sociedade pode encontrar alicerces sólidos e duradouros. Neste
sentido, a fé está unida à esperança, porque, embora a nossa morada aqui na terra se vá
destruindo, há uma habitação eterna que Deus já inaugurou em Cristo, no seu corpo (cf. 2 Cor
4, 16 — 5, 5). Assim, o dinamismo de fé, esperança e caridade (cf. 1 Ts 1, 3; 1 Cor 13, 13)
faz-nos abraçar as preocupações de todos os homens, no nosso caminho rumo àquela cidade, «
cujo arquitecto e construtor é o próprio Deus » (Heb 11, 10), porque « a esperança não engana
» (Rm 5, 5).
Unida à fé e à caridade, a esperança projecta-nos para um futuro certo, que se coloca numa
perspectiva diferente relativamente às propostas ilusórias dos ídolos do mundo, mas que dá
novo impulso e nova força à vida de todos os dias. Não deixemos que nos roubem a esperança,
nem permitamos que esta seja anulada por soluções e propostas imediatas que nos bloqueiam
no caminho, que « fragmentam » o tempo transformando-o em espaço. O tempo é sempre
superior ao espaço: o espaço cristaliza os processos, ao passo que o tempo projecta para o
futuro e impele a caminhar na esperança.
FELIZ DAQUELA QUE ACREDITOU
(cf. Lc 1, 45)
58. Na parábola do semeador, São Lucas refere estas palavras com que o Senhor explica o
significado da « terra boa »: « São aqueles que, tendo ouvido a palavra com um coração bom e
virtuoso, conservam-na e dão fruto com a sua perseverança » (Lc 8, 15). No contexto do
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Evangelho de Lucas, a menção do coração bom e virtuoso, em referência à Palavra ouvida e
conservada, pode constituir um retrato implícito da fé da Virgem Maria; o próprio evangelista
nos fala da memória de Maria, dizendo que conservava no coração tudo aquilo que ouvia e via,
de modo que a Palavra produzisse fruto na sua vida. A Mãe do Senhor é ícone perfeito da fé,
como dirá Santa Isabel: « Feliz de ti que acreditaste » (Lc 1, 45).
Em Maria, Filha de Sião, tem cumprimento a longa história de fé do Antigo Testamento, com a
narração de tantas mulheres fiéis a começar por Sara; mulheres que eram, juntamente com os
Patriarcas, o lugar onde a promessa de Deus se cumpria e a vida nova desabrochava. Na
plenitude dos tempos, a Palavra de Deus dirigiu-se a Maria, e Ela acolheu-a com todo o seu
ser, no seu coração, para que n’Ela tomasse carne e nascesse como luz para os homens. O
mártir São Justino, na obra Diálogo com Trifão, tem uma expressão significativa ao dizer que
Maria, quando aceitou a mensagem do Anjo, concebeu « fé e alegria ».[49] De facto, na Mãe
de Jesus, a fé mostrou-se cheia de fruto e, quando a nossa vida espiritual dá fruto, enchemo-nos
de alegria, que é o sinal mais claro da grandeza da fé. Na sua vida, Maria realizou a
peregrinação da fé seguindo o seu Filho.[50] Assim, em Maria, o caminho de fé do Antigo
Testamento foi assumido no seguimento de Jesus e deixa-se transformar por Ele, entrando no
olhar próprio do Filho de Deus encarnado.
59. Podemos dizer que, na Bem-aventurada Virgem Maria, se cumpre aquilo em que insisti
anteriormente, isto é, que o crente se envolve todo na sua confissão de fé. Pelo seu vínculo com
Jesus, Maria está intimamente associada com aquilo que acreditamos. Na concepção virginal
de Maria, temos um sinal claro da filiação divina de Cristo: a origem eterna de Cristo está no
Pai — Ele é o Filho em sentido total e único — e por isso nasce, no tempo, sem intervenção do
homem. Sendo Filho, Jesus pode trazer ao mundo um novo início e uma nova luz, a plenitude
do amor fiel de Deus que Se entrega aos homens. Por outro lado, a verdadeira maternidade de
Maria garantiu, ao Filho de Deus, uma verdadeira história humana, uma verdadeira carne na
qual morrerá na cruz e ressuscitará dos mortos. Maria acompanhá-Lo-á até à cruz (cf. Jo 19,
25), donde a sua maternidade se estenderá a todo o discípulo de seu Filho (cf. Jo 19, 26-27).
Estará presente também no Cenáculo, depois da ressurreição e ascensão de Jesus, para implorar
com os Apóstolos o dom do Espírito (cf. Act 1, 14). O movimento de amor entre o Pai e o
Filho no Espírito percorreu a nossa história; Cristo atrai-nos a Si para nos poder salvar (cf. Jo
12, 32). No centro da fé, encontra-se a confissão de Jesus, Filho de Deus, nascido de mulher,
que nos introduz, pelo dom do Espírito Santo, na filiação adoptiva (cf. Gl 4, 4-6).
60. A Maria, Mãe da Igreja e Mãe da nossa fé, nos dirigimos, rezando-Lhe:
Ajudai, ó Mãe, a nossa fé.
Abri o nosso ouvido à Palavra, para reconhecermos a voz de Deus e a sua
chamada.
Despertai em nós o desejo de seguir os seus passos, saindo da nossa terra e
acolhendo a sua promessa.
Ajudai-nos a deixar-nos tocar pelo seu amor, para podermos tocá-Lo com a fé.
Ajudai-nos a confiar-nos plenamente a Ele, a crer no seu amor, sobretudo nos
momentos de tribulação e cruz, quando a nossa fé é chamada a amadurecer.
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Semeai, na nossa fé, a alegria do Ressuscitado.
Recordai-nos que quem crê nunca está sozinho.
Ensinai-nos a ver com os olhos de Jesus, para que Ele seja luz no nosso caminho.
E que esta luz da fé cresça sempre em nós até chegar aquele dia sem ocaso que é o
próprio Cristo, vosso Filho, nosso Senhor.
Dado em Roma, junto de São Pedro, no dia 29 de Junho, solenidade dos Apóstolos São Pedro
e São Paulo, do ano 2013, primeiro de Pontificado.
FRANCISCUS
[1] Dialogus cum Tryphone Iudaeo, 121, 2: PG 6, 758.
[2] Clemente de Alexandria, Protrepticus, IX: PG 8, 195.
[3] « Brief an Elisabeth Nietzsche (11 de Junho de 1865) », in: Werke in drei Bänden (Munique
1954), 953-954.
[4] Divina Comédia, Paraíso, XXIV, 145-147.
[5] Acta Sanctorum, Iunii, I, 21.
[6] « Embora o Concílio não trate expressamente da fé, todavia fala dela em cada página,
reconhece o seu carácter vital e sobrenatural, supõe-na íntegra e forte e constrói sobre ela os
seus ensinamentos. Bastaria lembrar as declarações conciliares (...) para nos darmos conta da
importância essencial que o Concílio, coerente com a tradição doutrinal da Igreja, atribui à fé,
à verdadeira fé, aquela que tem Cristo como fonte e, como canal, o magistério da Igreja »
[Paulo VI, Audiência Geral (8 de Março de 1967): Insegnamenti V (1967), 705].
[7] Cf., por exemplo, Conc. Ecum. Vat. I, Const. dogm. sobre a fé católica Dei Filius, III: DS
3008-3020; Conc. Ecum. Vat. II, Const. dogm. sobre a divina Revelação Dei Verbum, 5;
Catecismo da Igreja Católica, 153-165.
[8] Cf. Catechesis, V, 1: PG 33, 505A.
[9] Enarratio in Psalmum, 32, II, s. I, 9: PL 36, 284.
[10] Martin Buber, Die Erzählungen der Chassidim (Zurique 1949), 793.
[11] Émile (Paris 1966), 387.
[12] Lettrè à Christophe de Beaumont (Lausanne 1993), 110.
[13] Cf. In evangelium Johannis tractatus, 45, 9: PL 35, 1722- 1723.
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[14] Parte II, IV.
[15] De continentia, 4, 11: PL 40, 356 (« ab eo qui fecit te noli deficere nec ad te »).
[16] « Vom Wesen katholischer Weltanschauung (1923) », in: Unterscheidung des
Christlichen. Gesammelte Studien 1923-1963 (Mainz 1963), 24.
[17] Confessiones, XI, 30, 40: PL 32, 825.
[18] Cf. ibid.: o. c., 825-826.
[19] Cf. G. H. von Wright (coord.), Vermischte Bemerkungen / Culture and Value (Oxford
1991), 32-33 e 61-64.
[20] Cf. Homiliae in Evangelia, II, 27, 4: PL 76, 1207 (« amor ipse notitia est »).
[21] Cf. Expositio super Cantica Canticorum, XVIII, 88: CCL, Continuatio Mediaevalis, 87,
67.
[22] Ibid., XIX, 90: o. c., 87, 69.
[23] « A Deus que revela é devida a "obediência da fé" (Rm 16, 26; cf. Rm 1, 5; 2 Cor 10, 5-6);
pela fé, o homem entrega-se total e livremente a Deus, oferecendo a Deus revelador o obséquio
pleno da inteligência e da vontade e prestando voluntário assentimento à sua revelação. Para
prestar esta adesão da fé, são necessários a prévia e concomitante ajuda da graça divina e os
interiores auxílios do Espírito Santo, o qual move e converte a Deus o coração, abre os olhos
do entendimento, e dá a todos a suavidade em aceitar e crer a verdade. Para que a compreensão
da revelação seja sempre mais profunda, o mesmo Espírito Santo aperfeiçoa sem cessar a fé
mediante os seus dons » (Conc. Ecum. Vat. II, Const. dogm. sobre a divina Revelação Dei
Verbum, 5).
[24] Cf. Heinrich Schlier, « Meditationen über den Johanneischen Begriff der Wahrheit », in:
Besinnung auf das Neue Testament. Exegetische Aufsätze und Vorträge 2 (Friburgo, Basel,
Viena 1959), 272.
[25] Cf. Summa theologiae, III, q. 55, a. 2, ad 1.
[26] Sermo 229/L, 2: PLS 2, 576 (« Tangere autem corde, hoc est credere »).
[27] Cf. n.º 73: AAS (1999), 61-62.
[28] Cf. Confessiones, VIII, 12, 29: PL 32, 762.
[29] De Trinitate, XV, 11, 20: PL 42, 1071.
[30] Cf. De civitate Dei, XXII, 30, 5: PL 41, 804.
[31] Cf. Congr. para a Doutrina da Fé, Decl. Dominus Iesus (6 de Agosto de 2000), 15: AAS 92
(2000), 756.
[32] Demonstratio apostolicae praedicationis, 24: SC 406, 117.
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[33] Cf. Boaventura, Breviloquium, Prol.: Opera Omnia, V (Quaracchi 1891), 201; In I librum
sententiarum, Proem., q. 1, resp.: Opera Omnia, I (Quaracchi 1891), 7; Tomásde Aquino,
Summa theologiae, I, q. 1.
[34] Cf. De Baptismo, 20, 5: CCL 1, 295.
[35] Const. dogm. sobre a divina Revelação Dei Verbum, 8.
[36] Cf. Conc. Ecum. Vat. II, Const. sobre a sagrada Liturgia Sacrosanctum Concilium, 59.
[37] Cf. Epistula Barnabae, 11, 5: SC 172, 162.
[38] Cf. De nuptiis et concupiscentia, I, 4, 5: PL 44, 413 (« Habent quippe intentionem
generandi regenerandos, ut qui ex eis saeculi filii nascuntur in Dei filios renascantur »).
[39] Conc. Ecum. Vat. II, Const. dogm. sobre a divina Revelação Dei Verbum, 8.
[40] In nativitate Domini sermo, 4, 6: SC 22, 110.
[41] Cf. Ireneu, Adversus haereses, I, 10, 2: SC 264, 160.
[42] Cf. ibid., II, 27, 1: o. c., 294, 264.
[43] Cf. Agostinho, De sancta virginitate, 48, 48: PL 40, 424- 425 (« Servatur et in fide
inviolata quaedam castitas virginalis, qua Ecclesia uni viro virgo casta cooptatur »).
[44] Cf. An Essay on the Development of Christian Doctrine (Uniform Edition: Longmans,
Green and Company, Londres 1868-1881), 185-189.
[45] Cf. Conc. Ecum. Vat. II, Const. dogm. sobre a divina Revelação Dei Verbum, 10.
[46] Orígenes, Contra Celsum, IV, 75: SC 136, 372.
[47] Ibid., 85: o. c., 136, 394.
[48] « Choruses from The Rock », in: The Collected Poems and Plays 1909-1950 (Nova Iorque
1980), 106.
[49] Cf. Dialogus cum Tryphone Iudaeo, 100, 5: PG 6, 710.
[50] Cf. Conc. Ecum. Vat. II, Const. dogm. sobre a Igreja Lumen gentium, 58.
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